MARAFO
Paulo Toledo
Quartel do Exército de Pouso Alegre, por volta do ano da graça de 1972. Nos dias normais de expediente, quase todos os oficiais tomavam o café da manhã no refeitório próprio. Essa refeição matinal precedia a uma formatura geral e diária da tropa, na qual o comandante da época sempre se fazia presente. Naquela manhã a rotina foi quebrada pela entrada em cena do Oficial-de-Dia, que se apresentando para o comandante, disse:
__Serviço com alteração.
__Tudo bem, o que houve? Respondeu o comandante.
Aí todos nós ouvimos o seguinte relato
__Senhor comandante, o Sargento Lemos, de serviço como meu adjunto, na madrugada passada, foi encontrado pela ronda, nos fundos do quartel, completamente embriagado. Ele estava tão bêbado que eu tive que dispensa-lo da função.
Tudo mal, tenente. E daí, prossiga, disse o comandante.
Aí, eu dei o maior” esporro” no sargento, pelo absurdo da sua conduta e ele ainda segurando uma garrafa de cachaça Amélia, quase vazia, pelo gargalo ainda teve a petulância de afirmar, em posição de sentido, que nada tinha feito de errado. Ele me disse que não tinha bebido nada, apenas estava invocando um caboclo, para espantar o azar. Daí baixou nele o caboclo bebedor que enxugou toda a garrafa de cachaça. Nesta hora, meu comandante, o sargento já tinha relaxado a posição de sentido e com aquele soluço de bêbado ainda disse: “isto aqui...hic, pro caboclo foi pouco, hic...isto aqui, pro caboclo, hic.. nem é cachaça: é MARAFO.”
Diante da cena inusitada, a risada geral da oficialidade, foi interrompida pela fala do comandante:
__Subcomandante coloque o Sargento Lemos, mesmo que embriagado, em frente a tropa formada, tenho que aplicar-lhe uma punição exemplar. Desta ele não vai esquecer.
Até hoje, quando reúnem-se alguns ex-milicos aqui em Pouso Alegre, sempre aparece alguém que se lembra da fala do comandante. Ela se tornou famosa. Existe até um ex soldado, o baianinho, que a imita com perfeição. Ei-la:
__Atenção Grupo! Eis aqui o Sargento Lemos. Vejam só! Ele estava de serviço, era o adjunto do oficial-de-dia e na madrugada de ontem, como o serviço estava muito monótono, resolveu espantar o azar, lá no fundo do quartel, fazendo um despacho. Pelo sim e pelo não, como ele não sabia quem poderia incorporar nele, por garantia, levou uma garrafa de Amélia. Mas, às vezes as coisas não saem como a gente espera. Então, num lugar de respeito como deve ser um quartel do Exército, em vez de baixar um caboclo comportado, despencou do além, pra fazer o sargento de cavalo, o caboclo bebedor, pinguço de uma figa. Aí uma garrafa de Amélia não deu nem pro começo. Acontece, meus comandados, que também aqui e agora, baixou no comandante outro caboclo: o caboclo RDE (Regulamento Disciplinar do Exercito). Assim, vou punir com quinze dias de cadeia o caboclo mau elemento que bebeu a cachaça do Sargento Lemos e com mais quinze o próprio sargento. Porém como ninguém tem como botar a mão no caboclo pinguço, a guarda, leva o sargento pra cumprir a pena dos dois.
Assim, ficava definitivamente decretado que no quartel de Pouso Alegre, Amélia, poderia ser “a mulher de verdade” jamais MARAFO.
sábado, 19 de dezembro de 2009
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