sábado, 19 de dezembro de 2009

MARAFO

MARAFO

Paulo Toledo


Quartel do Exército de Pouso Alegre, por volta do ano da graça de 1972. Nos dias normais de expediente, quase todos os oficiais tomavam o café da manhã no refeitório próprio. Essa refeição matinal precedia a uma formatura geral e diária da tropa, na qual o comandante da época sempre se fazia presente. Naquela manhã a rotina foi quebrada pela entrada em cena do Oficial-de-Dia, que se apresentando para o comandante, disse:
__Serviço com alteração.
__Tudo bem, o que houve? Respondeu o comandante.
Aí todos nós ouvimos o seguinte relato
__Senhor comandante, o Sargento Lemos, de serviço como meu adjunto, na madrugada passada, foi encontrado pela ronda, nos fundos do quartel, completamente embriagado. Ele estava tão bêbado que eu tive que dispensa-lo da função.
Tudo mal, tenente. E daí, prossiga, disse o comandante.
Aí, eu dei o maior” esporro” no sargento, pelo absurdo da sua conduta e ele ainda segurando uma garrafa de cachaça Amélia, quase vazia, pelo gargalo ainda teve a petulância de afirmar, em posição de sentido, que nada tinha feito de errado. Ele me disse que não tinha bebido nada, apenas estava invocando um caboclo, para espantar o azar. Daí baixou nele o caboclo bebedor que enxugou toda a garrafa de cachaça. Nesta hora, meu comandante, o sargento já tinha relaxado a posição de sentido e com aquele soluço de bêbado ainda disse: “isto aqui...hic, pro caboclo foi pouco, hic...isto aqui, pro caboclo, hic.. nem é cachaça: é MARAFO.”
Diante da cena inusitada, a risada geral da oficialidade, foi interrompida pela fala do comandante:
__Subcomandante coloque o Sargento Lemos, mesmo que embriagado, em frente a tropa formada, tenho que aplicar-lhe uma punição exemplar. Desta ele não vai esquecer.
Até hoje, quando reúnem-se alguns ex-milicos aqui em Pouso Alegre, sempre aparece alguém que se lembra da fala do comandante. Ela se tornou famosa. Existe até um ex soldado, o baianinho, que a imita com perfeição. Ei-la:
__Atenção Grupo! Eis aqui o Sargento Lemos. Vejam só! Ele estava de serviço, era o adjunto do oficial-de-dia e na madrugada de ontem, como o serviço estava muito monótono, resolveu espantar o azar, lá no fundo do quartel, fazendo um despacho. Pelo sim e pelo não, como ele não sabia quem poderia incorporar nele, por garantia, levou uma garrafa de Amélia. Mas, às vezes as coisas não saem como a gente espera. Então, num lugar de respeito como deve ser um quartel do Exército, em vez de baixar um caboclo comportado, despencou do além, pra fazer o sargento de cavalo, o caboclo bebedor, pinguço de uma figa. Aí uma garrafa de Amélia não deu nem pro começo. Acontece, meus comandados, que também aqui e agora, baixou no comandante outro caboclo: o caboclo RDE (Regulamento Disciplinar do Exercito). Assim, vou punir com quinze dias de cadeia o caboclo mau elemento que bebeu a cachaça do Sargento Lemos e com mais quinze o próprio sargento. Porém como ninguém tem como botar a mão no caboclo pinguço, a guarda, leva o sargento pra cumprir a pena dos dois.
Assim, ficava definitivamente decretado que no quartel de Pouso Alegre, Amélia, poderia ser “a mulher de verdade” jamais MARAFO.

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