O CORPO-SECO
Paulo Toledo
Pequeno e magro. Euclides é caboclo inteligente e trbalhador. Conhecido pelos mais ín¬timos como 'Seu Cride. ele é o que se pode chamar de "um. pé de boi" para no serviço. Com enxada, machado e alfanje, ele é um dos pequenos que valem por dois. Porém, como nada é perfeito, seu fraco é a "marvada" pinga. Ele bebe umas, outras, todas e quando começa não sabe parar. A curva etílica do Seu Cride acompanha o mesmo rítimo do seu humor. Assim, vai da ti¬midez inicial à euforia, à liberação total do espírito de gozação, até que, finalmente, se torna um da¬queles bêbados que falam com a gente cutucando com o dedo indicador. Vira o rei dos chatos.
Em uma dessas bebedeiras ele estava contando no botequim, vê se pode, como fora contratado para levar um "corpo-seco" até Aparecida do Norte. A estória ele contava mais ou menos assim:
“Hoje filho não respeita pai e mãe e num” acontece nada.. Mas antigamente, quando um.:filho fazia “quarqué marvadeza pra mãe”, virava"corpo seco". Eu mesmo sei muito bem da existência de dois excomungado desses que viviam aqui nestas bandas. Viver não.num é bem o caso, porque essas coisas num são vivas nem mortas, estão no meio. Pois bem, um deles "morto-vivia" em . um “ espinhêro” ali perto da Vendinha e o outro em um "calipá" lá pras bandas do Ribeirão das Morte, perto da chácara do desemboque. Tem um porém; no "corpo- seco" só o que é vivo é o cabelo e as unha. Por isso. alguém tem que, de vez em quando,” apara” a cabeleira e as garra do bruto.
Quem cuidava do danado lá do Ribeirão das Mortes era o próprio pai, um fazenderão muito rico. Ele virou alma penada porque arreiou a mãe e “muntou” nela com espora e tudo. Esse tal é o do “calipá” que eu já falei.
Então, seu pai querendo ficar livre desse baita sofrimento, sabendo que era entendido no assunto, procurou o “degas” aqui pra que eu desse destino na sina “mardita” do seu filho ingrato. Aí eu disse:
__ Pra “encontra” descanso eterno, "corpo seco" só se enterra ele lá na terra santa da Aparecida do Norte. Ainda mais; tem que se “viaja” só em noite de lua”crara” e na “cacunda" de um cristão, temente a Deus.
__Você “güenta” levar pra lá um desses “desinfeliz”, Seu Cride? _
- __ Eu mesmo, assim "de apé", 'num güento", mas se me derem uma mulinha boa, nova, bonita, bem domada
e bem arriada, eu topo.” Mas tem uma coisa”: o” animar”, depois do serviço, tem que me” ficá pertencente”.
- __Pois seja esse o seu pagamento e mais uma grana que eu vou lhe dar para a cachaça e demais despesas miúdas.
. Assim ficou tratado. Na primeira noite de lua cheia, arriei a beleza da mulinha que ele me deu, passei no
"caIipá", encontrei o "mardito" e disse: "baaamo"! E ele pulou na minha "cacunda"e” nois viajemo” a noite “intera” e, quando ía “amanheceno”,” infurmamo” numa macega de mato.
“Dizer que eu não arrependi da empreitada é mentira, pois "tava" com o lombo tão gelado que não consegui “ pregá os zoio “. Mais, como “trata” não é obrigado, mas cumprir é,” continuamo” nossa jornada. eu e o meu "corpo- seco". Ele, de vez em quando.” oiava” pra mim com um “zóio” mais do que esqui¬sito, eu gelava, fingia e disfarçava. Logo que a lua saia outra” veiz” eu dizia: "baaaamo"! E ele pulava na mínha "cacunda" e lá nóis ia ... Assim” fomo”, até que eu larguei aquela coisa bem enterrado num bar¬ranco do Rio Paraiba, lá na Aparecida do Norte, pois não foi nesse bendito rio que acharam a santi¬nha?"
Terminado o causo, Seu Cride tinha bebido todas. Então eu perguntei :
__Seu Cride, e o outro corpo-seco, lá da Vendinha?
Aí, então, ele me cutucou com o dedo indicador e respondeu:
- __Ainda falta - dizer que do primeiro eu fiquei com a "cacunda" gelada por uns treis ano.
_Agora - ic! - respondendo a sua pergunta: lhe igo que o outro saiu de voIks com o tio Zelão, .numa” mitideiz “de dar inveja- Isso faz uns deiz anos e até hoje ninguém sabe o “distino” que os dois” tomaro” .. Vai - hic! -lá, passa bem tarde da noite no trevo da Vendinha.”Se tive” sorte e à lua for bem “ crara”, o” vurto” do tio Zelão, que era um” cabocro” de uns cem quilo, aparece na meio do” asfarto”. Ele tá magrelo, com uma baita “cabelêra” e com umas unha que parece as do Zé do Caixão – hic - hic!
(Seu Cride nada mais disse e nem lhe foi perguntado).
domingo, 15 de novembro de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário