sexta-feira, 27 de novembro de 2009

DUAS ESTÓRIAS

DUAS ESTÓRIAS

Paulo Toledo


A primeira estória é de um pescador encontrado, ao acaso, numa dessas paradas de estrada, com o tráfego interrompido por obras.
Contou-me ele que dois compadres, amigos seus, que pescavam sempre juntos, certo dia se desentenderam, porque a água do rio estava muito barrenta e com água assim não pega peixe. Então um foi pescar e o outro pegou a sua espingardinha e foi ver se caçava algum bicho
O que foi pescar, por garantia, levou uma garrafa de pinga, jogou a vara n’água e ficou ali tomando uns goles esperando o peixe pegar. Foi bebendo, bebendo e como não vinha peixe, esvaziou a garrafa e caiu pra traz, dormindo como um justo.
O outro compadre, que foi caçar, conseguiu matar um tatu. E na volta, quando viu o amigo chapado, deitado e dormindo com a vara de pescar na água, tirou a vara, com cuidado, e fisgou o tatu no anzol e voltou a vara pra dentro d’água. Daí acordou o compadre:
__Acorda compadre, ta pegando alguma coisa na tua vara!
O companheiro acordou, agarrou a vara, tirou o tatu e colocou no embornal. Tudo na maior calma.
O outro estranhou:
__O que é isso compadre? Eu estava brincando, o tatu é meu.
O pescador retrucou:
__Deixa de bobeira compadre, eu to acostumado a pegar tatu neste poço. Domingo passado eu peguei uns cinco.
A outra estória é do professor Muriel. Está num livrinho que ele me deu e que sumiu na mão de um desses que não devolvem livros emprestados. Mas, como eu também a ouvi lá no Norte de Minas, acho que ela faz parte do folclore.
Ela se passa num lugarzinho de Minas Gerais e os personagens são: um velho regateiro, que casou com a menina mais bonita do lugar e o outro o João Grandão, que era o maior gozador do pedaço e que não largava do pé do velho, questionando o seu matrimônio.
Certo dia o velho entrou na venda e deu de cara com o João Grandão. A venda estava cheia de gente e a moral do velho foi colocada pra baixo da barriga das cobras, com as perguntas mais sacanas, todas a respeito da sua competência como marido, de menina nova, bonita e fogosa.
Então velho voltou para casa e passou a mão na sua foicinha e numa pedra de amolar. Quanto mais ele esfregava a primeira na segunda, mais aumentava a raiva que ele tinha do Grandão. Lá no íntimo ele repetia: “esse filho das unhas vai me pagar”.
A vila era cortada por um ribeirão que tinha uma pinguela, ponto obrigatório de passagem do João Grandão, pra sua roça de milho. Bem na ponta da pinguela tinha uma moita fechada. Pois foi lá que o velho atocaiou com a sua foice amolada, a sua raiva acumulada..
Clareou o dia e João Grandão surgiu, andando na direção da pinguela. Ele vinha fazendo o seu primeiro cigarro de palha do dia: Alisou a palha com o canivete e a colocou atrás da orelha, arrancou do bolso um naco de fumo e foi picando, picando, até chegar à pinguela. Então, quando foi colocar o primeiro pé no toco da pinguela, o velho saiu da tocaia e ZAS... Tacou-lhe a foice.
João Grandão continuou atravessando a pinguela e picando, picando fumo, Quando chegou do lado de lá do ribeirão, procurou a palha atrás da orelha...... Não achou nem a cabeça. Ela tinha ficado na outra banda do ribeirão.

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