sexta-feira, 27 de novembro de 2009

QUERMESSE

QUERMESSE

Paulo Toledo

Como dizia um amigo meu, eu não tenho a “mais mínima” preocupação ou o constrangimento por estar contando coisas, que já foram contadas e até escritas, com mais “engenho e arte”, por escritores de verdade e não por este pobre “escrivinhador” de causos. Pois, pratico essa atividade, com a maior cara de pau, por absoluta falta do que fazer na vida de velho aposentado, que cheguei após trombadas, trancos e empurrões.
“Além de aliás”, como também esse amigo falava, eu teria que abandonar a carreira de contador de causos, se tivesse me conformado com as coisas autênticas. Pelo contrário, com alguma coragem, quase tudo que passo pra frente, é coisa ouvida e vivida nos bate-papos e tertúlias que tive e ainda tenho, com os meus queridos parentes, diletos e discretos amigos. Mas também, de vez em quando, com gente fuxiqeira, bisbilhoteira, faladeira e mentirosa.
Em uma dessas prosas, recentemente, o assunto dominante girava em torno de como a igreja católica era radical, moralista e quase fundamentalista, como alguns muçulmanos são hoje. Não ficou de fora, aquela espécie de terrorismo que era praticado, quando se ensinava religião nos catecismos. Nessas aulas de religião a meninada era ameaçada com o fogo do inferno, principalmente, os que pecassem contra a castidade, mesmo sem saber bem o que era essa coisa.
Um desses meninos, ao ouvir da catequista que ele pecava por pensamentos, palavras e obras, se desesperou. Então procurou o pai, que era fazendeiro e indagou se lá no inferno crianças bem comportadas, assim como os seus bons empregados da fazenda, não poderiam ter algum privilégio e em vez de ir pro caldeirão, arranjar algum servicinho com o capeta chefe. O coitado já se considerava um caso perdido e procurava jeito de virar aprendiz de capeta.
Mas, incrível mesmo foi o que me contaram outro dia e que parece que foi publicado num jornal da cidade. Esta estória dá a exata medida do tema que estou tratando e teve como seu principal ator, Monsenhor Otaviano, pároco da Catedral Metropolitana de Pouso Alegre e “sem duvidamente” (olha o meu amigo de novo), um santo homem. No entanto, o mais moralista dos sacerdotes da Santa Amada Igreja.
Uma quermesse funcionava, todas as noites, ao lado da catedral e, entre uns e outros caça-níqueis, existia um serviço de alto-falantes no qual namorados ofereciam músicas mutuamente. A música de maior sucesso do momento era do Lupicínio. O samba tinha uns versos assim: ” De dia, me lava a roupa...De noite, me beija a boca...etc”
O monsenhor não concordou. Achou aquilo a maior heresia e um absurdo total. Como era possível, o sacro alto-falante da catedral propagar uma barbaridade daquelas. Então arranhou, com a ponta da chave da sacristia, o disco de vinil, para que tal imoralidade não mais fosse divulgada.
Mas, Vejam o que aconteceu e que pode ter sido provocado por algum capetinha moleque, daqueles que as catequistas da catedral tanto falavam. Na quermesse, à noite, a primeira música oferecida por um namorado à sua amada, foi a do tal disco arranhado e dele o som saiu assim:
“De dia, me lava a roupa, de noite me fuc, fuc fuc.......”

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