segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O "ANÃ"

“O ANÔ

Paulo Toledo

Por lá não existia ninguém muito baixinho, a não ser as crianças, é claro. Nenhum morador do lugar tinha menos de um metro de altura. O Luiz da Nica, também chamado de Tatuzinho, era chatetinho e o menor adulto do lugar, ainda assim media um pouco mais de metro. Anão então não existia, fisicamente como morador e nem como palavra, na linguagem corrente.
No entanto, existia no imaginário dos habitantes daquelas paragens, um ser fabuloso, meio fantástico e mitológico que os antigos chamavam de “anã.” Ele existia, só porque os mais velhos falavam que um deles veio com um circo muito antigo. Essa coisa, segundo diziam, tinha cabeça, tronco e membros, como os homens e mulheres atuais. Mais eram muito baixinhos, mas muito mesmo. Falavam também que não tinham certeza se a coisa era mortal, como todo mundo é.
Então, correu a notícia que na sede do Município tinha um circo armado, onde existiam esses tais “anãs”
É claro! Em todo lugar tem gente desocupada, que procura ganhar uns trocados. Pois foi o que aconteceu. Juntaram-se dois picaretas e partiram para Pouso Alegre, conversaram com o dono do circo e acabaram conseguindo alugar um anão, para exibir em Congonhal, no próximo domingo.
Chegando o domingo, pegaram o anãozinho, embrulharam num cobertor, para que ninguém o visse e partiram pra Congonhal. Lá chegando, alugaram um quarto na pensão do Seu Avelino, trancaram o coitado do baixinho e saíram pela rua anunciando:
Venha ver o anã! É baratinho ! É só quinhentos réis.
Logo formou-se uma fila na porta da pensão. Meu irmão que estudava medicina em Belo Horizonte e estava de férias por lá, não resistiu à curiosidade. Foi para a fila, esperou um bom tempo, pagou e deu de cara com a figura. Ele até hoje conta o que viu. Lá estava, ainda meio embrulhado, não um ser mitológico; mas um pobre coitado dum anão, muito feio, banguela e que estava apertado, morrendo de vontade de descarregar a
Bexiga.
O coitadinho ainda disse:
__Eu to louco de apertado e querendo conhecer este lugar. Mas enquanto tiver gente pagando pra me ver eles não me deixam sair daqui, nem pra dar uma mijada. Se eu fosse maior, eles iam ver comigo.
Hoje eu penso que se a minha terra tivesse a ventura de possuir um cineasta genial como foi Fellini, os tipos não lhe faltariam.

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