quinta-feira, 5 de novembro de 2009

LIVRO CARGA GERAL

LIVRO CARGA GERAL

Paulo Toledo


Dilermando era sargento de comunicações, penso que telefonista, aquela pessoa chave nas ligações entre os diversos setores em campanha e vital para o tiro de artilharia.
Dilermando era calmo, metódico, muito eficiente e extremamente dedicado. Esses méritos acabaram por transformá-lo em burocrata e o despejaram na sessão do patrimônio do quartel do Exército de Pouso Alegre. Ficou sendo então o responsável pelo livro “Carga Geral da Unidade”. Esse tal livro acho que não existe mais, mas naquela época era onde era controlado, tim-tim por tim-tim , tudo que existia no quartel, de canhão a prendedor de roupa, ainda com um detalhe importante. Acreditem se quiserem, para sublimar a excelência da burocracia dos milicos, todo ano era feito o seu tombamento, isto significava que em 31 de Dezembro era feito um Termo de Fechamento, que recebia um punhado de assinaturas, e em seguida em primeiro de Janeiro, tudo novamente era escriturado
Então, dia após dia, lá estava o nosso herói, praticamente escondido atrás daquele livrão, escrevendo e fumando sem parar.
Como seu chefe na Fiscalização Administrativa, então um dia, tentando quebrar a monotonia do seu trabalho, perguntei se, por acaso, teria acontecido alguma coisa interessante, naquela sua rotina enfadonha e ele respondeu:
__Meu chefe, este maldito livro tem coisas do arco da velha. Aqui na página 1049, tem pura pornografia. Veja o nome desta ferramenta: “serra de cortar pau de carpinteiro”, coisa muito feia e imoral. Porem, pior ainda é o que tinha na carga do ano passado e foi descarregada e jogada fora, vê se é possível: “mesa de comer, velha de três pernas”
Esse era o meu Exército.

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