segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ESCARRADEIRA

ESCARRADEIRA

Paulo Toledo

Escarrar e cuspir são coisas muito porcas e estão completamente fora de moda. Mas, teve uma época que o povo escarrava muito e pra todo lado.
Até o grande poeta Augusto dos Anjos chegou a versificar, mais ou menos assim:
“Apedreja essa mão vil, que te afaga,
E, escarra nessa boca que te beija”.
Ou então, cuspindo do alto da ponte Buarque de Macedo, lá de Recife:
“Cuspir de um abismo, noutro abismo.
Lançando aos céus o fumo de um cigarro.
Há mais filosofia nesse escarro,
Que em toda moral do Cristianismo”.
No Fórum de Pouso Alegre, tinha uma escarradeira do lado da mesa do Juiz. Contam que um famoso advogado da cidade estava empolgado na sua oratória e soltava um vozeirão que fazia tremer as cortinas. Mas, quando foi citar o nome de um laureado jurista francês, teve um lapso de memória. Deu um branco como se diz hoje. Então, gaguejando bateu os olhos na tal escarradeira e foi salvo: “como doutrinou o grande mestre Escarratieu”. Todo mundo engoliu.
A madrinha Carmelita, que era gente importante na cidade, pois era esposa do Coronel Evaristo e moravam no sobrado mais charmoso da praça principal, tinha os seus penicos e escarradeiras como artigos de primeira necessidade.
Aconteceu que um dia o casal abriu a sala de visitas para receber um querido compadre, fazendeiro lá das bandas do Congonhal. Como o compadre era fumante, Dona Carmelita se apressou em colocar uma escarradeira do lado de sua cadeira. Porem o compadre pá, mandou uma cusparada no chão do lado contrário. Então, Dona Carmelita, muito discretamente, mudou a peça de lado. Mas, conversa vai conversa vem, o compadre não se mancou e pá de novo do lado errado. Ela trocou mais umas duas vezes de lado a posição da escarradeira, até que o compadre falou:
__ Olha comadre, a senhora para de mexer com essa tigelinha, se não eu sou capaz de acertar uma “guspida” nela.

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