terça-feira, 3 de novembro de 2009

O GANJENTO

O GANJENTO

Paulo Toledo


Seu João Pedro e Seu Divino eram meus vizinhos lá na roça e viviam se estranhando por qualquer motivo ou razão, principalmente por causa das cercas das divisas. Enquanto Seu divino era a timidez personificada, Seu João Pedro era a própria figura do caipira metido a besta, arrogante, cheio de bazófias e valentias. Curto e grosso: ele era um ganjento.
Dado às suas características, o Seu João Pedro era chamado por nós seus vizinhos de Urtigão.
Urtigão, que andava sempre armado com um punhal pendurado no seu barrigão gordo, botava a sua mulher e a filharada pra trabalhar e vivia no “bem-bom”, passeando pelos arredores, montado num cavalo pangaré.
A venda do lugar pertencia a um filho do Urtigão: João Batista – o Tista, que à exemplo do pai, também punha a mulher no serviço atrás do balcão e ficava sentado na porta, enchendo o rabo de cachaça. Era lá que nós da vizinhança, de vez em quando, reuníamos para bater papo e para umas e outras caipirinhas.
Pois foi num desses papos que o Urtigão tomou a palavra para contar como tinha protegido de um gavião os pintinhos que sua mulher, Dona Maria, criava soltos no quintal.
Contava que pra acabar com a raça daquele gavião comedor de pinto, tinha carregado os dois canos de sua espingarda-de-carregar-pela-boca, cada um com tiro de mais de palmo de pólvora. Disse ele que tacou bucha, socou tudo até ficar bem justo e por falta de chumbo grosso, carregou o resto de cada cano com: grampos de cerca, cabeças de prego, vidro moído e um punhado de farpas de arame farpado. Feito isto, atocaiou esperando o pinhé-pinhé.
Segundo ele, os pintinhos da Dona Maria corriam pra lá e pra cá no terreiro e eis que de repente aparece o gavião, despencando das alturas, em cima dos coitadinhos. Ai ele conta:
__Rápido no gatilho e na pontaria, “tava” mirando o “filho-das-unha”, quando a Maria pulou no quintal pra espantar os pintinhos. Nessa hora eu já tinha puxado o gatilho. Que que eu fiz? Que que eu fiz? Rápido também no pensamento, tapei a boca do espingardão e gritei: sai Maria! Sai Maria! A arma ficou corcoveando no meu ombro até que a Maria saiu da direção da mira. Ai eu tirei o dedão e saiu um tiro com tanta fortidão, que derrubou duas bananeiras.
Nós arregalamos os olhos quietos, porém Seu Divino pra provocar perguntou:
__Viche, e o gavião?
__Saiu voando... Pinhé...pinhé...pinhé...
__Carece mostrar á ponta do dedão queimado de “porva” se não é mentira.
__Eu mostro é a ponta da minha faca seu porcaria, excomungado de uma figa. E sabe duma coisa eu vou te arrebentar, com o tiro do outro cano, que está lá dentro guardado e que eu acho que é “procê”
Ainda houve uma grande louvação: filho disto, filho daquilo. Porem estas Seu divino não escutou. Já tinha virado fumaça no alto do pasto.

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