quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
COISA DE MINEIRO
COISA DE MINEIRO
Paulo Toledo
As duas meninas, criadas no Rio de Janeiro, se casaram com dois mineiros, quase que autênticos. As duas são tão parecidas na maneira de ser, que torna nula a diferença física de uma ser loira e a outra morena. Já os dois maridos são bem diferentes em quase tudo, menos na maneira mineira de ser. Mas, o que é muito importante é que os casais são tão amigos que em mais de cinqüenta anos de convivência nunca tiveram o menor atrito.
Um casal mora no Rio de Janeiro e possui terras, fazendas e heranças, no município de Caratinga. O outro casal mora em Pouso Alegre, tem patrimônio modesto, porém suficiente para as suas necessidades.
As duas meninas dos tempos idos, hoje se falam e trocam novidades por telefone, praticamente todos os dias, coisa que não acontece com os seus maridos, que com as suas mineiridades são avessos à papo furado de telefone. Porém, o mineiro de Caratinga tem guardado algumas coisas muito interessantes do povo da sua terra. Então, nos raros encontros que tem com este seu concunhado, bota pra fora.
Eu já escrevi alguns desses “causos”. Mas, este tenho certeza que é inédito:
Na sede da fazenda de Caratinga, a noite já tinha chegado, o casal, terminado o jantar, estava se preparando para se recolher aos seus aposentos de dormir ( na roça se dorme cedo). A cozinheira acabara de limpar tudo e só o fogão de lenha continuava crepitando seu braseiro. Mas, eis que alguém entra pelo curral da casa grande e bate palmas à porta. Dr. Elíseo o dono da casa vai atender o visitante inesperado que pede um pouso na fazenda, coisa muito comum nas Minas Gerais.
O visitante foi prontamente atendido, convidado a entrar na cozinha, onde a cozinheira, por ordem do patrão, aqueceu uma bacia dágua, para o forasteiro lavar os pés antes de dormir. Coisa de mineiros.
O visitante sentado num banco da cozinha e tendo a bacia de água quente à sua frente, tirou o sapatão, esfregou os pés um no outro e, então, perguntou:
_ Ainda que mal pergunte, será que lavar os pés nágua quente, assim com a barriga vazia, não faz mal pra saúde?
NARIZ
NARIZ,. NARIZ E NARIZ
Paulo Toledo
Acho que todos nós, quando estávamos começando, no curso primário ou secundário sofremos algum tipo de brincadeira de mau gosto, que nos irritava profundamente, aumentava a nossa timidez e que no meu tempo de estudante não tinha o hoje pomposo nome de bulling. Bastava que a turma descobrisse um ponto fraco na vítima, que daí pra frente, em todas as oportunidades, os mais fortes deitavam e rolavam em cima do pobre coitado. E, como é óbvio, o fracote nunca reagia ou como se dizia, chamava pro pau ou para a briga.
Lembro-me que para esconder as coisas que pudessem me colocar na berlinda da turma, eu era extremamente tímido e procurava sempre permanecer na penumbra, falando pouco ou quase nada, a ponto de gelar, na sala de aula, quando tinha que responder uma pergunta do professor. E, se ele me chamasse para o quadro-negro para resolver um problema, aí mesmo é que não saia nada.
Hoje, eu tenho alguma dificuldade para avaliar como foi que me livrei daquela timidez quase patológica, que me acompanhou por um bom tempo. Penso que isso aconteceu no momento em que eu resolvi reconhecer e assumir o meu perfil físico. Pois seria impossível tornar-me um belo e garboso rapaz e muito difícil livrar-me da fama de ter um nariz digno do Cyrano de Bergerac. No entanto, eu poderia equilibrar isto adquirindo algumas qualidades, ou seguindo o conselho de um velho mestre e procurar uma bela mulher para nivelar as coisas. Isso eu consegui.
Então, teve um momento que eu mesmo acompanhava as gozações sobre o meu narigão, declamando Bocage:
“Nariz, nariz, e nariz,
Nariz , que nunca se acaba;
Nariz que se ele desaba,
Fará o mundo infeliz
Nariz que Newton não quis
Descrever-lhe a diagonal;
Nariz de massa infernal,
Que se o cálculo não me erra,
Posto entre o sol e a terra,
Faria o eclipse total!
Acho que foi a partir daí que comecei o tratamento contra a timidez. E, escrevendo isto agora me veio à lembrança um colega meu do internato do Colégio São José, que tinha uma perna mais fina e curta do que a outra e cujo apelido era “manco” (só podia ser). Mas, com ele ninguém “tirava brincadeirinhas”, porque ele era muito forte e brigão. Porem, um dia, ele foi chamado na aula de literatura portuguesa para declamar o poema de Guerra Junqueiro: “O Melro”. Quando ele se levantou para se dirigir à frente da sala, a turma soltou em voz baixa o tal apelido: manco, manco, manco...Aí então ele cometeu um terrível ato falho: encarou a turma e disse; “O Manco, Melro é a puta que pariiu Guerra Junqueiro”.
FÉ
FÉ
Paulo Toledo
Dizem que tudo que se escreve é mais ou menos autobiográfico. Por isso, fui recuperar algumas coisas escritas no passado, para ver se lá eu estava. Perdi a viagem, só achei pedaços e fragmentos do que eu possa ter sido. Mas, notei que nos meus guardados falta um assunto, o tema que é o mais importante desta nossa travessia pela vida. Então, se o que eu escrevi for tomado por uma espécie de diário, algum desavisado vai dizer: “esse caboclo é ateu”.
Acontece que sempre existiu uma razão, um motivo, para que eu não tivesse a coragem de escrever algo sobre religião, pois esse assunto para mim estava e ainda está reservado para gente sábia e iluminada. Coisa muito distante do que eu me considero. Em outras palavras, esse assunto não é pro meu bico.
Agora, quando eu falo em gente sábia e iluminada, não estou me referindo somente às pessoas eruditas. O exemplo disso é o que João Guimarães Rosa põe na boca do Riobaldo, no Grande Sertão e Veredas, que me encanta pela simplicidade, beleza e sabedoria:
“O que mais penso, texto e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é o que sara da loucura. Isso é que é a salvação-da- alma...Muita Religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio...”
Lá em Congonhal, também tinha um homem muito bondoso e simples, o Pedro Belizário, que quando rezava o terço na igreja, fazia com a maior fé do mundo, contemplando os mistérios do terço de forma muito original. Assim, para começar a reza ele dizia:
“No primeiro mistério ‘comtempremo’ São José sentado num Toco”.
Acho que esse terço era o mais considerado pela Sagrada Família. Eu dele sempre me lembro quando entro em qualquer igreja.
A grande verdade metafísica da existência de Deus, para mim passou a ser coisa definitiva e fora de discussão, quando o meu saudoso irmão Chico Toledo, abordando o tema me disse que foi o próprio criador do universo que colocou no ser humano a prova da sua existência. Porque ela está presente desde a cultura mais adiantada, mais elevada, até a tribo mais primitiva, onde vamos encontrar o bom selvagem, ajoelhado adorando o sol, a lua ou algo considerado sagrado, porque foi o criador de tudo.
Assim, deixo aqui registrado que a minha crença vai navegando desde as palavras do Riobaldo, passa pela fé do povo da minha terra e se sustenta na grande lógica do meu irmão Chico Toledo.
CARO MESTRE
CARO MESTRE
Paulo Toledo
Estou procurando organizar na memória alguns professores que deixaram marcas indeléveis na minha vida. Desde a Dona Sílvia que era professora e minha mãe me alfabetizando a reguadas, até aqueles que para mim foram verdadeiros guias e gurus. Dos quais seus alunos procuravam mais que aprender os ensinamentos, também os imitavam, transformando-os em modelos. Para variar, existiram alguns tipos exóticos e pedantes, dos quais não esqueço.
No colégio São José de Pouso Alegre desponta, entre outros bons professores, o mestre Mário Castelo, que além de ensinar ciências ainda era um bom poeta, acho que por essa sua característica humanista, ele sempre começava suas aulas contando uma pequena história familiar na qual sua esposa Dona Alzira era a principal protagonista. Isto motivava e prendia a atenção da molecada. Até hoje não esqueço como ele começava as suas aula: “certa vez, lá em Mococa, eu e a minha Alzira”...Então contava algum fato que não tinha nada a ver com a matéria que vinha depois. Mário Castelo foi um grande mestre e o interesse e o pouco que penso que sei das ciências físicas e naturais, devo a ele.
Depois, em São Paulo veio o professor Quintanilha. Sem medo de errar, este foi o melhor de todos. Quintanilha, na Escola Preparatória era professor de literatura, mas ele transformava a sala de aula em um palco de verdadeiro espetáculo, de onde saia filosofia, música, poesia, pintura, teatro e até balé. Deste grande mestre eu herdei o gosto pelas artes de um modo geral e um grande interesse pelos acontecimentos da Semana de Arte Moderna de 1922. Hoje, graças a ele sei que fora o amor que trazemos no peito, as artes são as únicas coisas que iluminam nossas vidas.
Agora vou falar de dois professores da AMAN. O primeiro é o Pinduca, que era professor de física e tratava a bordoadas a sua matéria. Como ele tinha sido professor de educação física, dizia-se na Academia Militar, que o Pinduca perdeu a educação e ficou com a física. O outro era um danado de professor de cálculo, que sempre começava a sua aula com uma pergunta: “Eu já contei pra vocês a história do sujeito que escapou de ser filho da puta?” Pois é, fui seu aluno dois anos seguidos. Ele lecionou cálculo diferencial, cálculo integral e geometria analítica. Dessas altas matemáticas eu não sei absolutamente nada e até desconfio que alguém saiba. Mas, o pior é que eu não vou poder contar como foi que aquele sujeito escapou da sua sina, porque ele também não contou.
PLEONASMO
PLEONASMO
Paulo Toledo
A nossa cidade sempre teve alguma gente importante na política do Estado e do País. E, não foi só na política, também nas letras, nos esportes e nas artes de uma maneira geral. Agora o que nunca faltou no nosso meio, no passado e no presente, foram os críticos e os fofoqueiros. Gente que sempre procurava alguma maledicência não só contra seus adversários, mas também contra alguém que se destacasse em qualquer ramo de atividade. Daí, então surgiam piadas e anedotas colocando o pobre coitado na berlinda.
Estou me lembrando de uma figura de pousoalegrense que foi fazendeiro criador de gado e dono da boate Novo Mundo, na Rua David Campista. Ele nunca perdeu uma eleição para vereador, talvez por isso sempre proporcionasse um punhado de histórias engraçadas, nas quais seus adversários e gozadores sempre colocavam em evidência o seu lado meio matuto.
Diziam as más línguas que ele, em certa ocasião, tinha amanhecido com um olho inchado. Então, colocou um tapa-olho e foi para a avenida. Deu sorte, logo encontrou o Prefeito, que era médico e famoso e que de cara fez o diagnóstico:
_O senhor está com conjuntivite.
Depois, seguindo sua caminhada, encontrou um compadre que querendo saber a razão do tal tapa-olho, teve a seguinte resposta:
_Eu to com conjuntivite nos zóio.
Daí o compadre corrigiu:
_ Não fala assim, compadre, isso é pleonasmo.
Nosso herói guardou bem a palavra e seguiu seu caminho. Mas, como era uma figura popular, não demorou que surgisse outro curioso que também queria saber o que ele tinha na vista. Agora, a sua resposta foi de extrema dúvida:
_ O Dr Miranda disse que é conjuntivite e o meu compadre falou que é pleonasmo. Como eu vou saber?
domingo, 6 de janeiro de 2013
TIO FANOR
TIO FANOR
A faca fazia parte da vestimenta do povo do Congonhal. Lá o caboclo vestia: calça, camisa, chapéu, sapatão e faca. Alguns congonhalenses até andavam descalços, mas sem a lapiana nem pensar, jamais.. Quando um dos meus tios, que era muito querido por todos nós, mudou-se para Pouso Alegre, continuou na nova morada, com a faquinha fazendo parte da sua indumentária. Só com um detalhe, ela que em Congonhal era mais ou menos rápida, passou a ser ligeiríssima. Saia da cintura e pulava pra barriga do antagonista num piscar de olhos.
De fato, ela foi introduzida até a metade na barriga de um desaforado que o chamou de filho disto ou daquilo, num jogo de truco. Sorte é que ela era das pequenas, caso contrário seu desafeto teria ido desta para a melhor. Nessa ocasião, Tio Fanor foi levado preso, mesmo tendo um sobrinho prefeito da cidade. Lei é lei.
A outra sorte do Tio Fanor era que alem do sobrinho prefeito ele tinha outro sobrinho, que além de advogado competentíssimo era uma pessoa tão bem de vida que se destacava como um dos poucos possuidores de automóvel da cidade. Ele tinha um daqueles carrinhos europeus barulhentos que eu nem desconfio de que marca era. Pois bem, esse sobrinho motorizado, ao saber que o querido irmão de sua mãe ia ver o sol nascer quadrado, ligou o seu carrinho, disparou para a cadeia e colocou em liberdade o Tio Fanor.
Daí para frente, Tio Fanor passou a dizer que a maior alegria da sua vida, foi escutar, dentro da cadeia, o barulho inconfundível do motor do carro do sobrinho chegando. Só que ele contava assim:
Vocês não sabem a alegria que eu senti quando ouvi o barulho daquele “peidorreirinho”.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
2013
2013
Paulo Toledo
Eu não sei como os verdadeiros escritores produzem as suas obras e as suas coisas que depois nos enche de prazer quando as estamos lendo. O João Ubaldo, sensacional cronista, diz que é por obrigação e que até hoje se sente frustrado por ainda não ter recebido encomenda para escrever uma bula de remédio. Acho que isso é uma grande falha dos laboratórios farmacêuticos, uma vez que se as bulas do Ubaldo saíssem tão boas como suas crônicas, poderiam curar os doentes só com a sua leitura. Então, a caixinha do remédio só viria com ela.
No meu caso, que não me considero um escritor de verdade e sim um cara meio exibido que procura encher o tempo de aposentado e de solidão, colocando no papel o que lhe vem à cabeça: “causos”, crônicas e outros bichos, o ato de escrever é uma coisa solitária, mas prazerosa.
E, como hoje já é o ano de 2013 e ele está apenas começando, o que está me encafifando são as previsões, que como qualquer palpiteiro penso que devo fazer e sem o menor medo de errar, porque se isso ocorrer, como é o mais provável, estarei certamente em boas companhias, desde o quase diluviano Nostradamus até o mais ilustre economista contemporâneo.
Então, lá vai:
1ª_ A Rede Globo continuará falando bem do governo.
2ª_Será feita uma Reforma Política, para dar mais poder a quem já tem.
3ª¬_Pouso Alegre vai proibir a invasão dos camelôs ao centro da cidade e reformar a Praça Senador José Bento.
4ª_O ministro Margarina, quero dizer Manteiga, errará novamente nas suas previsões de PIB. (Será o meu consolo)
5ª_A informática está no limite. Não esperem nenhuma novidade.
6ª_Teremos mais um ou dois escândalos no governo, lá em Brasília.
7ª_A bandidagem no Rio e em São Paulo continuará aumentando.
8ª_ O Cachoeira pode ser que vá para a cadeia. Mas o Maluf segue livre, leve e solto.
9ª_ A Reforma Agrária continuará lembrando João Cabral de Melo Neto: “É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é
a parte que lhe cabe neste latifúndio”
10ª¬_Para mim, eu estou prevendo e pedindo uma boa doze de tolerância, para conviver pacifica e harmoniosamente com
estes tempos bicudos.
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