A PORCADA MAGRA E O CORTADOR DE CANA
Paulo Toledo
Quem nasce em Minas Gerais, mais que mineiro é político. Por isso não tive como escapar dessa vocação ou mesmo destino. Então, não sei se por gosto, ou pelas circunstâncias, quando eu me dei conta, estava enfiado até o pescoço na política municipal.
Esse envolvimento na política de Pouso Alegre deu-me bons amigos. Mas, se não me trouxe inimigos, pelo menos, me proporcionou adversários de todo tipo.
Com relação aos chamados correligionários a coisa fica muito mais complicada, principalmente se a gente quiser permanecer fiel aos amigos e a princípios. Aí então, ninguém tem a certeza de quem estará do seu lado nas próximas eleições. Quem estará apoiando gente ordinária ou procurando defeitos nos contrários, mesmo que seja gente descente.
Hoje afastado das lides, isento de paixão, chego a admirar certos políticos da minha terra, com os quais nunca pude estar do mesmo lado, pois as tais circunstâncias nunca favoreceram.
Outro dia encontrei um desses políticos. E, em uma conversa rápida e franca, lhe perguntei:
__Como é que vai a política?
__Meu amigo, como você sabe e até chegou a me criticar por isso, eu não tive estudo, mas Deus me recompensou me dando muita inteligência. Então eu que comecei a vida criando porcos sei que quando uma porcada magra é colocada num chiqueiro novo, os magrelos comem até as tábuas do chiqueiro.
E falou mais:
__Quando a turma é ruim não adianta, não sai nada que preste. Eu tenho um amigo que tinha uma plantação de cana e a cana estava madura, no ponto de corte. Porém seus empregados em vez de trabalhar, viviam chupando cana. Como chupar cana exige boa dentadura ele dispensou os preguiçosos e contratou três caboclos banguelos. Gente sem dente não tem jeito de chupa cana, mas, sabe o que aconteceu?
Respondi que o canavial foi pra frente.
__Que nada rapaz. O dono chegou de supetão no canavial e viu esta barbaridade: um dos banguelos deitava de costa com a boca aberta e dois outros espremiam cana na sua bocona. Depois trocavam de posição.
Finalmente concordamos:
__Tem coisa que não tem jeito. Melhor a gente não mexer com política, não criar porcos e não acreditar em banguelo.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
domingo, 10 de janeiro de 2010
O TRATO
O TRATO
Paulo Toledo
“tratar não é obrigado, mas cumprir é”. Esta coisa era mais ou menos respeitada, aqui neste canto das Minas Gerais, da mesma maneira que ainda são respeitados, mais ou menos Os Dez Mandamentos da Lei de Deus, (assim mesmo com letra maiúscula). Então, embora a palavra tratante seja considerada como xingamento, todo mundo por aqui fala que vai, mas não vai; diz que faz, mas não faz e promete que é pra já e fica pra depois ou que vai cedo e chega tarde. E assim por diante...
Outra coisa muito dita por aqui é: “A gente faz o que pode o mais, não está obrigado”. Viche! Pura balela. Nestas bandas gargantear, contar vantagem, ser ganjento e tapear o próximo; é mole.
Agora tem um porém, Inventar um contrato, um convênio, um mandamento da lei de Deus, um dogma religioso que precisa ser honrado até de baixo d’água, para fugir de uma situação embaraçosa, para evitar de levar um cano, ou coisa parecida. Isto é com a gente mesmo. Veja o exemplo de um pasteleiro que tinha a carrocinha de pastel, situada em frente a agência do Banco do Brasil.
Esse pasteleiro, segundo diziam as más linguas,estava muito bem de vida porque vendia muito pastel. Mas muito mesmo. Os pasteis saiam da sua frigideira como uma cascata, para uma fila interminável de bocas, que se queimando com tanta quentura, que mal sentiam o gosto da farinha de milho e do recheio de batata com grãozinhos de carne moída. A outra cascata é a de grana entrando nos seus bolsos
Pois esse feliz pasteleiro que morava em uma boa casa e tinha outras de aluguel, um belo dia, em plena faina pastelífera. recebeu a visita de um seu compadre, vizinho e parente desesperado Na casa desse coitado não tinha mantimentos e ainda faltava uns remedinhos pra patroa, então ele apelou, quase chorando, pedindo uma grana emprestada.
Pois o “fedasunha” do pasteleiro respondeu:
__Olha compadre eu morro de vontade de lhe emprestar a grana que você está me pedindo, mas eu não posso. Eu tenho um trato com o Banco do Brasil, aqui de frente. Eu não empresto dinheiro e eles não vendem pastel.
Paulo Toledo
“tratar não é obrigado, mas cumprir é”. Esta coisa era mais ou menos respeitada, aqui neste canto das Minas Gerais, da mesma maneira que ainda são respeitados, mais ou menos Os Dez Mandamentos da Lei de Deus, (assim mesmo com letra maiúscula). Então, embora a palavra tratante seja considerada como xingamento, todo mundo por aqui fala que vai, mas não vai; diz que faz, mas não faz e promete que é pra já e fica pra depois ou que vai cedo e chega tarde. E assim por diante...
Outra coisa muito dita por aqui é: “A gente faz o que pode o mais, não está obrigado”. Viche! Pura balela. Nestas bandas gargantear, contar vantagem, ser ganjento e tapear o próximo; é mole.
Agora tem um porém, Inventar um contrato, um convênio, um mandamento da lei de Deus, um dogma religioso que precisa ser honrado até de baixo d’água, para fugir de uma situação embaraçosa, para evitar de levar um cano, ou coisa parecida. Isto é com a gente mesmo. Veja o exemplo de um pasteleiro que tinha a carrocinha de pastel, situada em frente a agência do Banco do Brasil.
Esse pasteleiro, segundo diziam as más linguas,estava muito bem de vida porque vendia muito pastel. Mas muito mesmo. Os pasteis saiam da sua frigideira como uma cascata, para uma fila interminável de bocas, que se queimando com tanta quentura, que mal sentiam o gosto da farinha de milho e do recheio de batata com grãozinhos de carne moída. A outra cascata é a de grana entrando nos seus bolsos
Pois esse feliz pasteleiro que morava em uma boa casa e tinha outras de aluguel, um belo dia, em plena faina pastelífera. recebeu a visita de um seu compadre, vizinho e parente desesperado Na casa desse coitado não tinha mantimentos e ainda faltava uns remedinhos pra patroa, então ele apelou, quase chorando, pedindo uma grana emprestada.
Pois o “fedasunha” do pasteleiro respondeu:
__Olha compadre eu morro de vontade de lhe emprestar a grana que você está me pedindo, mas eu não posso. Eu tenho um trato com o Banco do Brasil, aqui de frente. Eu não empresto dinheiro e eles não vendem pastel.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
SUS
SUS !
Paulo Toledo
O sus do título acima, não é a sigla do Sistema Único de Saúde. Este sus! O dicionário define como expressão para infundir ânimo e coragem. Foi dele que eu me lembrei hoje.
Sim, velho e calmo coronel aposentado, eu me lembro que eu já fui bravo, fui valente. Mais que isso: eu já fui uma fera. Porem, isso faz muito tempo e eu era apenas um menino que foi derrubado, literalmente, meio sem querer, na E P F ( Escola Preparatória de Fortaleza), escola do Exército Brasileiro que pegava meninos, como eu, de dezesseis anos e “preparava” para ir para a Academia Militar, onde se formavam os oficiais do glorioso Exército.
Nesta escola a meninada acordava às cinco horas da manhã e, na instrução militar, era o tempo todo atiçada contra os inimigos da Pátria Amada, Salve! Salve! E, nas aulas do ensino fundamental: Português, Matemática, História, Geografia e línguas; os professores não davam a mínima atenção para ela. Só havia cobrança.
A E P F era uma escola de guerra. Lá eu não me lembro de não ter ouvido a palavra paz, uma única vez. Seu lema era: “Para frente ! Custe o que custar!”. Esse tal lema era sempre lembrado pelo seu comandante, Coronel Rangel, apelidado de “cachorrão”.Ele fazia questão que a meninada, estufasse o peito e gritasse, à plenos pulmões: “custe o que custar!” Toda vez que ele entrava no auditório e erecto, em posição de sentido gritava:
Cadetes! Para Frente!
Todos nós, então, estávamos “na ponta dos cascos”. Porem, depois dos primeiros meses de escola e daquele regime de amargar, em um domingo de folga, eu estava com meu amigo inseparável daquela época longínqua, na Praça Cristo Rei, que fica em frente à escola, olhando para igreja lá existente. Questionávamos toda a beliquosidade da nossa escola e divagávamos sobre literatura, poesia, música e, principalmente sobre as pernas finas das meninas de Fortaleza; quando veio a idéia de ir até a igreja. Talvez se a gente rezasse um pouco a nossa braveza, o nosso espírito guerreiro, ficasse mais amenizado.
Ledo engano, na igreja do Cristo Rei, era a hora da missa dos cadetes católicos da minha escola, que era rezada pelo Capelão Militar. Dela eu sai mais guerreiro ainda, com os versos de um cântico que ainda guardo na memória:
“Levantai-vos Soldados de Cristo!
SUS! Correi! Voai à vitória.....
Não nascemos senão para a luta
De batalha, amplo campo é a terra
Jamais finda, é constante esta guerra
É herança dos filhos de Adão
SUS! Segui este Rei glorioso....
Esforçai-vos constante na luta...
Fortaleza circunde voss’alma...
Na segura e eterna mansão”
Como a imagem que eu hoje eu tenho do Cristo: paz, perdão, mansidão e compaixão. Penso que este SUS! Pra isso, SUS! pra aquilo pode até formar um idealista; mas pode também transformar um idealista num fanático e até do fanático fazer um “homem bomba.
Sus Credo! Ou melhor: Cruz credo!
Paulo Toledo
O sus do título acima, não é a sigla do Sistema Único de Saúde. Este sus! O dicionário define como expressão para infundir ânimo e coragem. Foi dele que eu me lembrei hoje.
Sim, velho e calmo coronel aposentado, eu me lembro que eu já fui bravo, fui valente. Mais que isso: eu já fui uma fera. Porem, isso faz muito tempo e eu era apenas um menino que foi derrubado, literalmente, meio sem querer, na E P F ( Escola Preparatória de Fortaleza), escola do Exército Brasileiro que pegava meninos, como eu, de dezesseis anos e “preparava” para ir para a Academia Militar, onde se formavam os oficiais do glorioso Exército.
Nesta escola a meninada acordava às cinco horas da manhã e, na instrução militar, era o tempo todo atiçada contra os inimigos da Pátria Amada, Salve! Salve! E, nas aulas do ensino fundamental: Português, Matemática, História, Geografia e línguas; os professores não davam a mínima atenção para ela. Só havia cobrança.
A E P F era uma escola de guerra. Lá eu não me lembro de não ter ouvido a palavra paz, uma única vez. Seu lema era: “Para frente ! Custe o que custar!”. Esse tal lema era sempre lembrado pelo seu comandante, Coronel Rangel, apelidado de “cachorrão”.Ele fazia questão que a meninada, estufasse o peito e gritasse, à plenos pulmões: “custe o que custar!” Toda vez que ele entrava no auditório e erecto, em posição de sentido gritava:
Cadetes! Para Frente!
Todos nós, então, estávamos “na ponta dos cascos”. Porem, depois dos primeiros meses de escola e daquele regime de amargar, em um domingo de folga, eu estava com meu amigo inseparável daquela época longínqua, na Praça Cristo Rei, que fica em frente à escola, olhando para igreja lá existente. Questionávamos toda a beliquosidade da nossa escola e divagávamos sobre literatura, poesia, música e, principalmente sobre as pernas finas das meninas de Fortaleza; quando veio a idéia de ir até a igreja. Talvez se a gente rezasse um pouco a nossa braveza, o nosso espírito guerreiro, ficasse mais amenizado.
Ledo engano, na igreja do Cristo Rei, era a hora da missa dos cadetes católicos da minha escola, que era rezada pelo Capelão Militar. Dela eu sai mais guerreiro ainda, com os versos de um cântico que ainda guardo na memória:
“Levantai-vos Soldados de Cristo!
SUS! Correi! Voai à vitória.....
Não nascemos senão para a luta
De batalha, amplo campo é a terra
Jamais finda, é constante esta guerra
É herança dos filhos de Adão
SUS! Segui este Rei glorioso....
Esforçai-vos constante na luta...
Fortaleza circunde voss’alma...
Na segura e eterna mansão”
Como a imagem que eu hoje eu tenho do Cristo: paz, perdão, mansidão e compaixão. Penso que este SUS! Pra isso, SUS! pra aquilo pode até formar um idealista; mas pode também transformar um idealista num fanático e até do fanático fazer um “homem bomba.
Sus Credo! Ou melhor: Cruz credo!
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
MINISTRO DA DEFESA
MINISTRO DA DEFESA
Paulo Toledo
Como velho coronel, eu me lembro que no futebol do meu tempo tinha um jogador que era chamado de beque-de-espera. Esta impoluta figura era sempre um atleta grande, forte, bruto e burro, que ficava dentro da grande área, chutando a bola, os adversários e o que mais estivesse por perto, pro lado que o seu nariz apontasse.
Mas, não sei por que estou falando de futebol. Eu quero falar é do Ministério da Defesa, aliás, que não pode ser ocupado por militar, regra esta que tornou o milico um cidadão desigual aos outros perante a lei, já que Ministro da Defesa ele não pode ser.
A principal condição para que alguém seja Ministro da Defesa é que ele seja um político cheio de “lero-lero” e de “melosquência”, para colocar a milicada longe do Presidente e dos demais ministros, isto é: longe do poder.
Assim, os militares, longe do poder e avessos à politicagem e à malandragem, por vocação e formação, ficam assistindo a liquidação e o sucateamento das FFAA, em função do deslavado revanchismo do bando que está no poder.
Agora me lembro porque falei no beque-de-espera, pois, foi isto que me veio a mente quando vi a foto do atual Ministro da Defesa fantasiado de General e abraçado a uma sucuri, lá em um batalhão de selva da Amazônia. Acho que ele foi escalado para, a semelhança dos “becões” de antigamente, despachar para fora do Planalto aqueles que queiram encher o saco do Presidente, em nome das Forças Armadas.
Além da sucuri da Amazônia, parece que o beque-de-espera da Defesa, agora travestido de piloto, vai fazer um vôo num daqueles aviões de caça da FAB do século passado. Deus queira que além do apelido de “Rolando-lero” lhe acrescentem o de Rainha da Sucata, ou melhor, Rei da Sucata.
Em Tempo:
Com vêem, já que milico não pode ser da defesa, se for inativo, pode ser de ataque.
Paulo Toledo
Como velho coronel, eu me lembro que no futebol do meu tempo tinha um jogador que era chamado de beque-de-espera. Esta impoluta figura era sempre um atleta grande, forte, bruto e burro, que ficava dentro da grande área, chutando a bola, os adversários e o que mais estivesse por perto, pro lado que o seu nariz apontasse.
Mas, não sei por que estou falando de futebol. Eu quero falar é do Ministério da Defesa, aliás, que não pode ser ocupado por militar, regra esta que tornou o milico um cidadão desigual aos outros perante a lei, já que Ministro da Defesa ele não pode ser.
A principal condição para que alguém seja Ministro da Defesa é que ele seja um político cheio de “lero-lero” e de “melosquência”, para colocar a milicada longe do Presidente e dos demais ministros, isto é: longe do poder.
Assim, os militares, longe do poder e avessos à politicagem e à malandragem, por vocação e formação, ficam assistindo a liquidação e o sucateamento das FFAA, em função do deslavado revanchismo do bando que está no poder.
Agora me lembro porque falei no beque-de-espera, pois, foi isto que me veio a mente quando vi a foto do atual Ministro da Defesa fantasiado de General e abraçado a uma sucuri, lá em um batalhão de selva da Amazônia. Acho que ele foi escalado para, a semelhança dos “becões” de antigamente, despachar para fora do Planalto aqueles que queiram encher o saco do Presidente, em nome das Forças Armadas.
Além da sucuri da Amazônia, parece que o beque-de-espera da Defesa, agora travestido de piloto, vai fazer um vôo num daqueles aviões de caça da FAB do século passado. Deus queira que além do apelido de “Rolando-lero” lhe acrescentem o de Rainha da Sucata, ou melhor, Rei da Sucata.
Em Tempo:
Com vêem, já que milico não pode ser da defesa, se for inativo, pode ser de ataque.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
JERSON TOLEDO
JERSON TOLEDO
(Escrito, muito bem, por Miriam Helena Toledo,
Minha queridíssima irmã)
Jerson Toledo nasceu em Congonhal, em 12 de janeiro de 1900, e morreu em Pouso Alegre, em 28 de abril de 1990, acompanhando, portanto, o século por 90 anos. Passou a primeira infância em Congonhal, junto de seus pais Custódio Toledo, mestre-escola, que lhe ensinou as primeiras letras, e Elisa Toledo.
Com a morte de seu pai, a família, passando dificuldades, transferiu-se para Pouso Alegre sob a proteção do tio materno, Evaristo Valdetaro e Silva, conhecido como coronel Evaristo, dono de uma farmácia bem equipada segundo os padrões da época e muito freqüentada pelos políticos, médicos e farmacêuticos da região. Foi ali que o então menino, ainda de pés descalços, aprendeu, com a experiência, os princípios teóricos e práticos de sua futura ' profissão: a de farmacêutico.
Tinha profundo respeito pela figura do tio, substituto do seu pai, e de seus amigos mais velhos que conversavam diariamente na farmácia sobre remédios, política e livros. Destes amigos, o que mais o impressionou foi o Dr. Cícero, médico dedicado que ajudava a manipular os remédios para seus clientes.
Assim cresceu e tornou-se rapaz, autodidata, apreciando poetas e escritores, principalmente os franceses Victor Hugo e Chateaubriand e brasileiros como José de Alencar, Machado de Assis. Atendia com gentileza os que procuravam ali os remédios para curar suas mazelas, mas também não recusava um dedinho de prosa.
Já adulto, voltou para Congonhal como sócio de seu irmão mais velho, Tuany Toledo, em uma farmácia. Foi então que ficou enamorado de uma professorinha, Silvia Mafalda Bocato, que viera dar aulas nas Escolas Reunidas de Congonhal vila ainda pertencente ao município de Pouso Alegre. Casaram-se em 1927 e de sua união nasceram cinco filhos: Francisco de Assis Toledo, Marina Toledo de Paula, Ferdinando Toledo, Paulo Gerson Toledo e Miriam Helena Toledo.
Por muitos anos seu Jerson continuou exercendo a função de farmacêutico, até que, surgindo uma oportunidade, resolveu comprar o cartório de Congonhal. Foi quando enfrentou a sua mais longa viagem, a de Belo Horizonte, onde fez o concurso para poder assumir sua nova função de escrivão.
Para o cartório levou o mesmo espírito de solidariedade e cortesia que sempre tivera na famácia. Atendia igualmente ricos e pobres, estes últimos, a maioria, -"quebrando todos os galhos', indo a cavalo ou charrete a fazendas, por estradas íngremes, muitas yezes barrentas e escorregadias, a fim de fazer uma escritura ou mesmo um casamento. Nunca perdeu o hábito de recomendar uma determinada ação profilática ou um remédio, quando ouvia uma queixa ou observa¬va algum ferimento nas pessoas que com ele se relacionavam.
Naque!a vidinha pacífica de Congonhal, seu Jerson, com a habilidade que tinha ao manipularar remédios em laboratório artesanal, dedicou-se então ao cuidado das orquídeas, ao minucioso e lento preparo dos anzóis e iscas para a sua pescaria, o lazer predileto.
Com a aposentadoria de dona Silvia como diretora do único grupo escolar que então havia na agora cidade de Coiigonhal, seu Jerson resolveu também se aposentar e mudar-se para Pouso Alegre, onde moravam seus irmãos, pois seus filhos, todos adultos, estavam distantes, em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.Em Pouso Alegre, na rua Francisco Sales, 195, o casal passou a velhice, cultivando parentes e amizades e sentindo-se realizado com o êxito dos filhos.
Exemplo de honestidade e simplicidade. Lembrança de velhos tempos um sorriso, um cumprimento um dedo de prosa... um adeus.
(Escrito, muito bem, por Miriam Helena Toledo,
Minha queridíssima irmã)
Jerson Toledo nasceu em Congonhal, em 12 de janeiro de 1900, e morreu em Pouso Alegre, em 28 de abril de 1990, acompanhando, portanto, o século por 90 anos. Passou a primeira infância em Congonhal, junto de seus pais Custódio Toledo, mestre-escola, que lhe ensinou as primeiras letras, e Elisa Toledo.
Com a morte de seu pai, a família, passando dificuldades, transferiu-se para Pouso Alegre sob a proteção do tio materno, Evaristo Valdetaro e Silva, conhecido como coronel Evaristo, dono de uma farmácia bem equipada segundo os padrões da época e muito freqüentada pelos políticos, médicos e farmacêuticos da região. Foi ali que o então menino, ainda de pés descalços, aprendeu, com a experiência, os princípios teóricos e práticos de sua futura ' profissão: a de farmacêutico.
Tinha profundo respeito pela figura do tio, substituto do seu pai, e de seus amigos mais velhos que conversavam diariamente na farmácia sobre remédios, política e livros. Destes amigos, o que mais o impressionou foi o Dr. Cícero, médico dedicado que ajudava a manipular os remédios para seus clientes.
Assim cresceu e tornou-se rapaz, autodidata, apreciando poetas e escritores, principalmente os franceses Victor Hugo e Chateaubriand e brasileiros como José de Alencar, Machado de Assis. Atendia com gentileza os que procuravam ali os remédios para curar suas mazelas, mas também não recusava um dedinho de prosa.
Já adulto, voltou para Congonhal como sócio de seu irmão mais velho, Tuany Toledo, em uma farmácia. Foi então que ficou enamorado de uma professorinha, Silvia Mafalda Bocato, que viera dar aulas nas Escolas Reunidas de Congonhal vila ainda pertencente ao município de Pouso Alegre. Casaram-se em 1927 e de sua união nasceram cinco filhos: Francisco de Assis Toledo, Marina Toledo de Paula, Ferdinando Toledo, Paulo Gerson Toledo e Miriam Helena Toledo.
Por muitos anos seu Jerson continuou exercendo a função de farmacêutico, até que, surgindo uma oportunidade, resolveu comprar o cartório de Congonhal. Foi quando enfrentou a sua mais longa viagem, a de Belo Horizonte, onde fez o concurso para poder assumir sua nova função de escrivão.
Para o cartório levou o mesmo espírito de solidariedade e cortesia que sempre tivera na famácia. Atendia igualmente ricos e pobres, estes últimos, a maioria, -"quebrando todos os galhos', indo a cavalo ou charrete a fazendas, por estradas íngremes, muitas yezes barrentas e escorregadias, a fim de fazer uma escritura ou mesmo um casamento. Nunca perdeu o hábito de recomendar uma determinada ação profilática ou um remédio, quando ouvia uma queixa ou observa¬va algum ferimento nas pessoas que com ele se relacionavam.
Naque!a vidinha pacífica de Congonhal, seu Jerson, com a habilidade que tinha ao manipularar remédios em laboratório artesanal, dedicou-se então ao cuidado das orquídeas, ao minucioso e lento preparo dos anzóis e iscas para a sua pescaria, o lazer predileto.
Com a aposentadoria de dona Silvia como diretora do único grupo escolar que então havia na agora cidade de Coiigonhal, seu Jerson resolveu também se aposentar e mudar-se para Pouso Alegre, onde moravam seus irmãos, pois seus filhos, todos adultos, estavam distantes, em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.Em Pouso Alegre, na rua Francisco Sales, 195, o casal passou a velhice, cultivando parentes e amizades e sentindo-se realizado com o êxito dos filhos.
Exemplo de honestidade e simplicidade. Lembrança de velhos tempos um sorriso, um cumprimento um dedo de prosa... um adeus.
sábado, 19 de dezembro de 2009
MARAFO
MARAFO
Paulo Toledo
Quartel do Exército de Pouso Alegre, por volta do ano da graça de 1972. Nos dias normais de expediente, quase todos os oficiais tomavam o café da manhã no refeitório próprio. Essa refeição matinal precedia a uma formatura geral e diária da tropa, na qual o comandante da época sempre se fazia presente. Naquela manhã a rotina foi quebrada pela entrada em cena do Oficial-de-Dia, que se apresentando para o comandante, disse:
__Serviço com alteração.
__Tudo bem, o que houve? Respondeu o comandante.
Aí todos nós ouvimos o seguinte relato
__Senhor comandante, o Sargento Lemos, de serviço como meu adjunto, na madrugada passada, foi encontrado pela ronda, nos fundos do quartel, completamente embriagado. Ele estava tão bêbado que eu tive que dispensa-lo da função.
Tudo mal, tenente. E daí, prossiga, disse o comandante.
Aí, eu dei o maior” esporro” no sargento, pelo absurdo da sua conduta e ele ainda segurando uma garrafa de cachaça Amélia, quase vazia, pelo gargalo ainda teve a petulância de afirmar, em posição de sentido, que nada tinha feito de errado. Ele me disse que não tinha bebido nada, apenas estava invocando um caboclo, para espantar o azar. Daí baixou nele o caboclo bebedor que enxugou toda a garrafa de cachaça. Nesta hora, meu comandante, o sargento já tinha relaxado a posição de sentido e com aquele soluço de bêbado ainda disse: “isto aqui...hic, pro caboclo foi pouco, hic...isto aqui, pro caboclo, hic.. nem é cachaça: é MARAFO.”
Diante da cena inusitada, a risada geral da oficialidade, foi interrompida pela fala do comandante:
__Subcomandante coloque o Sargento Lemos, mesmo que embriagado, em frente a tropa formada, tenho que aplicar-lhe uma punição exemplar. Desta ele não vai esquecer.
Até hoje, quando reúnem-se alguns ex-milicos aqui em Pouso Alegre, sempre aparece alguém que se lembra da fala do comandante. Ela se tornou famosa. Existe até um ex soldado, o baianinho, que a imita com perfeição. Ei-la:
__Atenção Grupo! Eis aqui o Sargento Lemos. Vejam só! Ele estava de serviço, era o adjunto do oficial-de-dia e na madrugada de ontem, como o serviço estava muito monótono, resolveu espantar o azar, lá no fundo do quartel, fazendo um despacho. Pelo sim e pelo não, como ele não sabia quem poderia incorporar nele, por garantia, levou uma garrafa de Amélia. Mas, às vezes as coisas não saem como a gente espera. Então, num lugar de respeito como deve ser um quartel do Exército, em vez de baixar um caboclo comportado, despencou do além, pra fazer o sargento de cavalo, o caboclo bebedor, pinguço de uma figa. Aí uma garrafa de Amélia não deu nem pro começo. Acontece, meus comandados, que também aqui e agora, baixou no comandante outro caboclo: o caboclo RDE (Regulamento Disciplinar do Exercito). Assim, vou punir com quinze dias de cadeia o caboclo mau elemento que bebeu a cachaça do Sargento Lemos e com mais quinze o próprio sargento. Porém como ninguém tem como botar a mão no caboclo pinguço, a guarda, leva o sargento pra cumprir a pena dos dois.
Assim, ficava definitivamente decretado que no quartel de Pouso Alegre, Amélia, poderia ser “a mulher de verdade” jamais MARAFO.
Paulo Toledo
Quartel do Exército de Pouso Alegre, por volta do ano da graça de 1972. Nos dias normais de expediente, quase todos os oficiais tomavam o café da manhã no refeitório próprio. Essa refeição matinal precedia a uma formatura geral e diária da tropa, na qual o comandante da época sempre se fazia presente. Naquela manhã a rotina foi quebrada pela entrada em cena do Oficial-de-Dia, que se apresentando para o comandante, disse:
__Serviço com alteração.
__Tudo bem, o que houve? Respondeu o comandante.
Aí todos nós ouvimos o seguinte relato
__Senhor comandante, o Sargento Lemos, de serviço como meu adjunto, na madrugada passada, foi encontrado pela ronda, nos fundos do quartel, completamente embriagado. Ele estava tão bêbado que eu tive que dispensa-lo da função.
Tudo mal, tenente. E daí, prossiga, disse o comandante.
Aí, eu dei o maior” esporro” no sargento, pelo absurdo da sua conduta e ele ainda segurando uma garrafa de cachaça Amélia, quase vazia, pelo gargalo ainda teve a petulância de afirmar, em posição de sentido, que nada tinha feito de errado. Ele me disse que não tinha bebido nada, apenas estava invocando um caboclo, para espantar o azar. Daí baixou nele o caboclo bebedor que enxugou toda a garrafa de cachaça. Nesta hora, meu comandante, o sargento já tinha relaxado a posição de sentido e com aquele soluço de bêbado ainda disse: “isto aqui...hic, pro caboclo foi pouco, hic...isto aqui, pro caboclo, hic.. nem é cachaça: é MARAFO.”
Diante da cena inusitada, a risada geral da oficialidade, foi interrompida pela fala do comandante:
__Subcomandante coloque o Sargento Lemos, mesmo que embriagado, em frente a tropa formada, tenho que aplicar-lhe uma punição exemplar. Desta ele não vai esquecer.
Até hoje, quando reúnem-se alguns ex-milicos aqui em Pouso Alegre, sempre aparece alguém que se lembra da fala do comandante. Ela se tornou famosa. Existe até um ex soldado, o baianinho, que a imita com perfeição. Ei-la:
__Atenção Grupo! Eis aqui o Sargento Lemos. Vejam só! Ele estava de serviço, era o adjunto do oficial-de-dia e na madrugada de ontem, como o serviço estava muito monótono, resolveu espantar o azar, lá no fundo do quartel, fazendo um despacho. Pelo sim e pelo não, como ele não sabia quem poderia incorporar nele, por garantia, levou uma garrafa de Amélia. Mas, às vezes as coisas não saem como a gente espera. Então, num lugar de respeito como deve ser um quartel do Exército, em vez de baixar um caboclo comportado, despencou do além, pra fazer o sargento de cavalo, o caboclo bebedor, pinguço de uma figa. Aí uma garrafa de Amélia não deu nem pro começo. Acontece, meus comandados, que também aqui e agora, baixou no comandante outro caboclo: o caboclo RDE (Regulamento Disciplinar do Exercito). Assim, vou punir com quinze dias de cadeia o caboclo mau elemento que bebeu a cachaça do Sargento Lemos e com mais quinze o próprio sargento. Porém como ninguém tem como botar a mão no caboclo pinguço, a guarda, leva o sargento pra cumprir a pena dos dois.
Assim, ficava definitivamente decretado que no quartel de Pouso Alegre, Amélia, poderia ser “a mulher de verdade” jamais MARAFO.
REFREGA
REFREGA
Paulo Toledo
No Fórum e na Delegacia de Polícia, frente ao Delegado, Juiz ou Promotor, acabam por acontecer coisas mais imprevisíveis, às vezes até engraçadas.
Contava eu para um grande amigo, parente e advogado competentíssimo, o que tinha acontecido na inquirição de uma putinha, na Delegacia de Ouro Fino, única sobrevivente de um pavoroso acidente de carro. E, ele deu o troco.
Contei-lhe que o acidente aconteceu no trevo de Inconfidentes onde tem uma curva que os caminhoneiros batizaram de “Jesus está chamando”, porque ela é pavorosa e fora dela tem um buracão, um verdadeiro socavão.
Dizia eu, que a vítima tinha sido um batateiro, que depois de vender muito bem sua colheita, encheu os bolsos de grana, a cuca de pinga, o carro de putas e “foi pra gandaia”.
Então o delegado, que era amigo do batateiro, querendo deixar registradas as últimas palavras de seu pranteado amigo, pois elas poderiam melhorar sua biografia, dar prova de seu arrependimento ou até servir de caminho para sua salvação. Perguntou para a testemunha:
__Quais foram as últimas palavras do Tião Batateiro, quando o carro desabou no precipício?
__Palavra, nada seu delegado, disse ela, foi grito, ele deu um berro: SEGUUUURA PUTADA!!!!!
Meu amigo não só gostou do “causo”, como retrucou com uma estória lá do Fórum de Caratinga, sua terra natal.
Lá, segundo ele, a pergunta foi do Juiz, para um caboclo que estava presente em um entrevero na zona, do qual saiu vitimada uma prostituta, com um tiro abaixo da linha da cintura.
Como a briga tinha durado quase a noite inteira, o Juiz queria ter a certeza se o ferimento da vítima foi dessa ou de outra confusão, tão comum nesse ambiente. Então, perguntou:
A testemunha pode afirmar se o tiro foi antes ou depois da refrega?
__Olha seu doutor, eu acho que bateu uns três dedos pra riba da refrega.
Esta foi a resposta da testemunha, mais que ocular.
(pano rápido)
Paulo Toledo
No Fórum e na Delegacia de Polícia, frente ao Delegado, Juiz ou Promotor, acabam por acontecer coisas mais imprevisíveis, às vezes até engraçadas.
Contava eu para um grande amigo, parente e advogado competentíssimo, o que tinha acontecido na inquirição de uma putinha, na Delegacia de Ouro Fino, única sobrevivente de um pavoroso acidente de carro. E, ele deu o troco.
Contei-lhe que o acidente aconteceu no trevo de Inconfidentes onde tem uma curva que os caminhoneiros batizaram de “Jesus está chamando”, porque ela é pavorosa e fora dela tem um buracão, um verdadeiro socavão.
Dizia eu, que a vítima tinha sido um batateiro, que depois de vender muito bem sua colheita, encheu os bolsos de grana, a cuca de pinga, o carro de putas e “foi pra gandaia”.
Então o delegado, que era amigo do batateiro, querendo deixar registradas as últimas palavras de seu pranteado amigo, pois elas poderiam melhorar sua biografia, dar prova de seu arrependimento ou até servir de caminho para sua salvação. Perguntou para a testemunha:
__Quais foram as últimas palavras do Tião Batateiro, quando o carro desabou no precipício?
__Palavra, nada seu delegado, disse ela, foi grito, ele deu um berro: SEGUUUURA PUTADA!!!!!
Meu amigo não só gostou do “causo”, como retrucou com uma estória lá do Fórum de Caratinga, sua terra natal.
Lá, segundo ele, a pergunta foi do Juiz, para um caboclo que estava presente em um entrevero na zona, do qual saiu vitimada uma prostituta, com um tiro abaixo da linha da cintura.
Como a briga tinha durado quase a noite inteira, o Juiz queria ter a certeza se o ferimento da vítima foi dessa ou de outra confusão, tão comum nesse ambiente. Então, perguntou:
A testemunha pode afirmar se o tiro foi antes ou depois da refrega?
__Olha seu doutor, eu acho que bateu uns três dedos pra riba da refrega.
Esta foi a resposta da testemunha, mais que ocular.
(pano rápido)
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