quinta-feira, 8 de novembro de 2012

VOLTA AO PASSADO

Outro dia me dei conta que estava fazendo mais um aniversário quando alguns amigos e parentes me telefonaram, para os tradicionais cumprimentos. Mas eis que um desses amigos me arremessou para o passado, em uma velocidade espantosa, quando me perguntou se eu já tinha feito mais uma marca, dando um talho no gancho do meu estilingue. Virgem Santa! Quanto tempo! Põe tempo nisso! Acho que nem existe estilingue nos tempos atuais. Alias isso até é muito bom, pois a passarada e as vidraças dos vizinhos ficam protegidas, coisas que eram muito vulneráveis em priscas eras. Escrevi priscas eras. Puxa vida! Isto é mais velho que o gancho do meu estilingue e antes disso dizem que não havia estrelas nem sóis, nem luas ou planetas, ou seja, prisca é coisa anterior ao que vem antes. (Será que deu pra entender?) Mas, voltando ao estilingue, acho que com o arquivamento dessa arma ridícula e primitiva, a humanidade evoluiu bastante, pois ela era responsável pela idéia, colocada na molecada, que passarinho foi colocado no mundo pra gente treinar a pontaria, inicialmente a pedradas, depois aperfeiçoando com armas de fogo. Então, hoje quando vejo o meu jardim repleto de pássaros, de várias espécies, fico super feliz, ao mesmo tempo em que dói dentro do meu peito, um remorso tão antigo quanto as estilingadas que dei e as marcas que fiz no cabo do meu estilingue.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

AS MENINAs DA RUA DAVID CAMPISTA

AS MENINAS DA RUA DAVID CAMPISTA Paulo Toledo Era o ano da graça de 1948, Pouso Alegre ia fazer 100 anos e quem estivesse passando pela Praça Senador José Bento, lá encontraria um monte de charretes, condução individual e meio de transporte de pequenas cargas, principalmente das malas e dos viajantes que chegavam e partiam pela “Maria fumaça” da Rede Mineira de Viação. Mas, as damas da sociedade e, principalmente, as suas protegidíssimas filhas, ficavam muito longe daquele moderno, cheiroso e rápido meio de transporte. Pois, era com as charretes que acontecia um famoso desfile nas tardes de domingo e que tinha como palco a avenida Dr. Lisbôa e a Praça da Catedral. No desfile dominical, cada uma contratava a sua charrete e todas vinham rizonhas e convidativas, protagonizar uma franca exposição de pernas, para delírio da meninada, que, das outras fêmeas da cidade não viam uma nesga de perna sequer. Estou falando das meninas da Rua David Campista, local que a meninada não arriscava aventurar-se, por respeito aos pais e pelo temor que a má fama do lugar anunciava. Na David Campista, ficava o “BATACLÔ da centenária Pouso Alegre.

RÉQUIEM PARA O VELHO CHICO

Caros amigos, sócios do Rancho de Maria da Cruz e seus assíduos freqüentadores, “Não há bem que sempre dure ou mal que não acabe”, isto é, nada dura para sempre. Ainda bem que as coisas funcionam desse jeito. O fim daquilo que foi bom, pode ser muito difícil, mas com o tempo, a idade chega e como esse fim se torna inevitável, temos que estar preparados para isto. Pois, a milenar sabedoria budista diz: “A única coisa permanente é a impermanência das coisas”. Assim, quando o velho pescador faz a sua derradeira pescaria no Velho Rio São Francisco, navegando por ele ou admirando as suas margens e sua beleza fascinante, sempre lhe vêm à mente coisas tão antigas que ele fica desconfiado que, neste cenário, haja mesmo existido em outras vidas, pelas quais tenha passado como um ser vivente qualquer: talvez um sapo, um peixe, um índio ou mesmo um crocodilo, como se proclamava João Guimarães Rosa. Esse rio foi como uma mãe generosa que tudo deu: alimentou, lavou, fertilizou e criou gerações. Rio que foi rico e hoje, super maltratado, nada mais pode dar para o povo pobre, bom e simples que habita às suas margens e também para aqueles que muito lhe amam e dele receberam no passado o prazer de abundantes pescarias. Rio do folclore, da música, da poesia, do foguetório e do caboclo d’água, hoje apenas uma assombração brincalhona. Rio do Rancho da Dona Arcanja, do Tonho, do Zú, da Fatinha, do Zé Capeta e dos meus muito caros amigos e companheiros de pescarias memoráveis. Em resumo, o velho pescador, pela sua idade e condições físicas, está se despedindo do velho rio que também está esgotado. No entanto, leva consigo a sua imagem como o poeta Manuel Bandeira levou do seu “beco”, isto é, “intacta e suspensa no ar”, no momento em que ele diz: “ADEUS PARA NUNCA MAIS”

terça-feira, 6 de novembro de 2012

CARGO DE CONFIANÇA

Aí, para formar o governo, ele pegou a sua turma e a espalhou, distribuindo todo mundo, pra ocupar todos os cargos importantes em termos de prestígio e poder. No entanto deixou reservado para o seu fiel escudeiro o principal cargo de confiança. Aliás, esse cargo era assim chamado porque o seu ocupante seria o seu principal conselheiro e ajudante em todas as ações de seu governo. Mais do que isso, ele teria papel fundamental em tudo que fosse necessário para o seu projeto de poder, no atual mandato e na continuidade do seu grupo pendurado nos principais cargos da República, até que ele mesmo conseguisse vislumbrar, lá pra frente, alguém que pudesse substituí-lo. A outra característica do tal cargo de confiança e a principal é a de que a confiança tinha que ser um sentimento mútuo entre o governante e seu auxiliar principal. Então tudo e todas as ações e atos, legítimos ou não, de um teria de ser do inteiro conhecimento do outro. Em compensação, um não deixaria o outro abandonado no caso de que uma ação de poder não fosse considerada legítima e legal. O tempo passa e o pior pra eles acontece. Coisas foram feitas que além de ilegítimas foram verdadeiramente criminosas. Então, depois de denunciadas e provadas o detentor do cargo de confiança é julgado, condenado e vai pra cadeia. Perguntas que ficam no ar: _ como estará o papo entre o escudeiro e o seu chefe? _ O tal escudeiro vai ficar peladinho na chuva? _ E o chefe? Fica numa boa?

"JUS EXPERNIANDI"

Nós sabemos que a maioria no governo é descente, porém também sabemos que há uma cambada de marginais infiltrada por toda máquina governamental. No entanto, dessa cambada, somente alguns poucos políticos brasileiros podem ser tachados oficial e solenemente como corruptos. Assim, num país em que até o Maluf, que é procurado pela polícia no mundo inteiro, não pode ter esse rótulo, agora o Supremo Tribunal Federal sapecou essa péssima qualidade em um punhado de gente tão importante, que mandava no país em passado recente. E, olha que esse tribunal não é pouca coisa, não é um jurizinho de programa de auditório de TV, quem está falando é a mais alta corte de justiça do país e de maneira definitiva. Então, se o STF diz que José Dirceu, José Genuíno e Delúbio Soares, entre outros, estão condenados por corrupção, nós podemos, eu aqui do meu canto e todo mundo por ai a fora chamá-los desse jeito, por essa alcunha e temos conversado. No entanto, por incrível que pareça, existe um furioso protesto, suponho que sem precedentes, de um desses corruptos, coisa sem lógica e sem sentido, falando até em democracia e estado de direito e não reconhecendo no STF autoridade para puni-lo. Confesso que fiquei tão indignado com o palavrório do corrupto, ofensivo ao Supremo, que tive que consultar um velho advogado meu amigo, sobre se essa manifestação não merecia uma pena adicional. Ele, no entanto, respondeu-me na maior calma e tranqüilidade: _O corrupto está apelando, como todo mundo que não tem razão para o “jus experniandi”.

MARCUS VALÉRIUS

Marcus Valérius Corvus (o Corvo), segundo a Wikipédia (blog do Tass) era general romano quando Cristo foi crucificado. Daí, Tass comenta: “Cada época tem o Marcos Valério que merece”. Assim, se na história universal, apareceu alguém homônimo que pode ser comparado a ele, por aqui, na história desta terra de palmeiras, onde canta o sabiá, tenho a absoluta certeza que ele é imbatível em qualquer posição ou atividade. Então ele é o Marcos Valério Único. Agora, se na vida real ninguém a ele se compara, fica difícil procurar no nosso folclore um tipo que a ele se assemelhe. Fico pensando no Pedro Malas Artes, no Odorico Paraguaçu do Bem Amado, ou então nos personagens dos “Trapalhões”: Didi, Dedé, Muçum e Zacarias. Todos com pós-graduação em esperteza, malandragem e vigarice. Mas, por que ele é tão importante? Ora, toda a sua excelência deriva do que ele sabe, ou finge saber da picaretagem alheia. E, como vivemos em um país de picaretas, todos que têm rabo preso o temem. Alias é um mundo de gente muito importante. Então, ele, malandramente espalha em dozes homeopáticas o que sabe, ou finge saber, deixando muita gente apavorada, tornando-se assim a figura exponencial da política brasileira do momento, capaz de desafiar até o sapo barbudo e transforma-lo em um engolidor de sapos. Aí, eu volto a pensar, como o mundo dá voltas, como o que hoje é verdade, amanhã não passa de um blefe. Como que uma personagem que em tudo que mexeu deu errado e agora está condenada a quarenta anos de prisão, ficou, assim, tão temida pelos poderosos? Respondo: eu não sei como vai acabar esta história e como acho que ninguém sabe, aqui coloco umas reticências.....

quarta-feira, 10 de março de 2010

INAUGURAÇÂO

INAUGURAÇÃO

Paulo Toledo


Aqui tudo era inaugurado, com direito a discurseira, foguetório e festança. Desde as coisas mais bizarras, extravagantes, estapafúrdias e profanas; até as sagradas e respeitosas. Pois foi com procissão, missa campal, jejum, abstinência, foguetório e cantoria, que foi inaugurado o Santo Cruzeiro que fica depois do aterrado. E também, com muito alarido, desfile e outros bichos, que foi instalado, em frente à antiga loja das Casas Pernambucanas, o novo Ponto de Charretes. Nessa oportunidade, Mane Maleiro apresentou para a sociedade as suas duas novas mulinhas; Dito Pintado e Zé Leitão suas charretes novas, fabricadas pelo Nelo Casalequi. E, seguiu-se o desfile de outras charretinhas mixurucas, pois o transporte urbano da cidade de Pouso Alegre era feito por essa moderna, limpa e rápida condução.
No Clube Literário e Recreativo, o seu Presidente Joaquim Reis festejava duas a três melhorias por ano. A Prefeitura não deixava por menos, cortando fitas de inauguração de qualquer coisa: Parque Infantil, Matadouro Municipal e até mata-burro do Ribeirão das Mortes. Tudo com muito foguetório e discursos intermináveis.
Agora, inauguração pra valer mesmo foi a da Boite Novo Mundo. Pois a noite começava na cidade com um futing na praça principal e acabava, pouco depois das dez horas, com o termino da sessão do Cine Eldorado. Então, para a vida boêmia, sem outra alternativa, só restava a Rua David Campista,ou seja a rua da zona, Lá no quartel esse lugar tinha nome, sobrenome e sigla: Zona do Baixo Meretrício- ZBM.
Pois foi lá na ZBM que foi inaugurada a Boite Novo Mundo e o meu compadre Zé Salústio estava presente e conta como foi essa festa, que eu vou tentar reproduzir:
Maria Branca, a mulher mais disputada ( sem trocadilho ) do lugar, dançava com Tetéia Charlante um samba canção do Lupicínio Rodrigues ao som da orquestra do Bento Pepe. O cantor era o Divino, porteiro do clube e baterista da orquestra. Rita bagageira e Maria Bodoque, também dançavam com os seus pares.
Porem, quando Divino cantou: “Ele pode chegar, está na hora”. “Dito Tiroteio”, com um cigarro pendurado no canto da boca e um copo na mão, mandou parar a música e soltou o verbo:
É isso mesmo, está na hora. Então na qualidade de Presidente da LEMA eu peço a palavra:. Argentino de Paula, este homem que é o dono desta casa maravilhosa, poderia ser tudo que quisesse na vida. Ele podia ser médico e não foi porque não quis estudar medicina. Ele podia ser o Juiz lá do Fórum, não está lá porque não quis mexer com advocacia. Podia ser o Prefeito da cidade, não disputou eleição porque não quis. Podia ser o Comandante do Regimento, não foi porque não quis assentar praça. Podia até ser o Bispo de Pouso Alegre, mas ele não quis ir pro Seminário. Tudo isto, meus senhores e moçada pra se transformar no maior CABARETERO do sul de Minas Gerais.