terça-feira, 18 de dezembro de 2012
O CARA DE PAU
O CARA DE PAU
Paulo Toledo
De um lado desta história está um açougueiro do Bairro da Faisqueira, que tendo a família grande, a freguesia pequena e o controle precário sobre suas finanças ficou endividado. Mas, tão na pindaíba que os juros bancários, enquanto teve crédito, consumiu o seu pequeno patrimônio. Alias, coisa muito comum nos dias atuais, quando os bancos estão aí mesmo para chupar o sangue do cidadão até a última gota e depois se vangloriarem dos lucros astronômicos que larapiaram (está no dicionário, pode conferir) de todos nós.
Do outro lado está um amigo meu, também companheiro de pescaria, forte como um touro, “brabo” como uma cascavel e super cismado de que todo mundo quer passá-lo para traz nos negócios. Coisa de boiadeiro. Eu vivo tentando amansá-lo nos poucos contatos que temos agora e que foram muito freqüentes no passado. Porém, ele sempre sorri e diz que eu posso ficar tranqüilo, que comigo não vai ter briga, a menos que eu coloque negócio de mãe no meio. Coisa impossível, pois eu sou de boa paz e muito respeitador das progenitoras alheias.
Esse meu amigo boiadeiro fornece a matéria prima para os açougues da cidade e foi assim que tendo vendido para o magarefe da Faisqueira, durante um bom tempo, por razões obvias, ficou sem ver a cor do dinheiro.
Cobrança vai, desculpa vem muitas vezes e a “brabeza” do boiadeiro foi crescendo, até que um dia resolveu dar um ultimato para o devedor. Assim, o possível caloteiro tinha uma semana para resolver sua dívida ou então teria sua cara devidamente partida.
Diz o meu amigo que não foi capaz de cumprir a sua ameaça e não quebrou a tal cara porque a desculpa que recebeu dessa vez o desarmou e por pouco não lhe provocou uma boa risada.
Veja qual foi a desculpa do cara de pau:
_ Olha aqui Celsão, eu devo pra você e pra um mundão de gente. Então, quando eu tenho alguma grana sobrando eu faço um sorteio pra ver quem eu posso pagar. E, se você continuar me enchendo o saco eu vou tirar você do sorteio.
ACREDITE SE QUIZER
ACREDITE SE QUIZER
Paulo Toledo
Próximo ao portão principal, quase no portão mesmo, do Cemitério Municipal da Rua Comendador José Garcia, existe um boteco que eu acho que é o paraíso dos “bebuns”. Eu digo isto porque você pode passar por lá, a qualquer hora do dia ou da noite e ver a turma “chupando o mé” sem parar e na maior alegria.
Acontece que o cemitério tinha e deve ter ainda dois portões: um na Comendador e o outro que dá para os fundos, onde existe um bairro muito populoso. Então, esses tais portões são a entrada e a saída de um atalho que passa pelo campo santo e que, obviamente, ficam sempre fechados à noite.
Um dos freqüentadores assíduos do tal boteco, que eu já me referi, é um pedreiro meu amigo morador lá das bandas do fundo da casa dos mortos, para quem esse atalho facilita muito a vinda pro boteco durante o dia.
Acontece que esse meu amigo pedreiro é também um contador de “causos” e ele jura de pés juntos que em uma noite, saindo do boteco, estanhou muito o fato do portão do cemitério estar aberto e mais ainda, a presença de no local de uma loira muito bonita e convidativa.
Então, ele perguntou à loirona, para iniciar uma conversa, se por acaso ela sabia se o portão dos fundos também estava aberto. Aí a sua surpresa se multiplicou quando ela simplesmente entrou no cemitério e lhe disse:
_Me acompanhe.
Virgem Santa! Pensou ele, agora é só engrenar a cantada que a loira está no papo. Então falou:
_ A menina não tem medo de atravessar o cemitério assim “de noite”?
A resposta veio fulminante:
_ Quando eu era viva tinha.
ALHO, PIMENTA E SAL
ALHO PIMENTA E SAL
Paulo Toledo
Quando menino cheguei a Pouso Alegre, para o internato no Colégio São José. Logo percebi que os serviços públicos da cidade, principalmente água e luz, eram muito precários. Isto porque o prefeito da cidade era ou tinha sido o Dr. Sapucahy, mesmo nome do nosso maior rio. Sua esposa chamava-se Dona Judite e como o casal não tinha filhos, os críticos maldosos (eles sempre existiram) adaptaram a seguinte quadrinha:
“Pouso Alegre, cidade que seduz.
O sapucahy não dá água
E a Judite
Não dá luz.”
Imaginem então Congonhal, que era apenas um distrito de Pouso Alegre. Lá a energia elétrica só existia à noite, vinda da sede do município, por meio de uma linha de transmissão de postes de madeira, de péssima qualidade, que não resistiam qualquer ventania ou chuva forte. Os críticos diziam que a iluminação das ruas de Pouso Alegre era tão ruim, que nos postes tinha um punhado de tomates pendurados em vez de lâmpadas. Pois a de Congonhal, quando tinha luz , era pior.
Assim, lá nas noites escuras de Congonhal faziam o maior sentido os versos do grande poeta Ascenso Ferreira:
“Na noite tão preta como carvão.
A gente falava de assombração” .
Então, esse era o assunto predileto e dominante nas minhas noites de menino. E, apesar da fama que eu tinha de corajoso, na verdade morria de medo de assombração. Coisa que, aliás, por muito pouco não se tornou real na minha vida de garoto. Pois, nas noites escuras de Congonhal cheguei a sentir calafrios e estranhos arrepios na espinha. Só faltou mesmo topar com alma penada.
Que bom que hoje as assombrações e fantasmas foram todos exorcizados da vida real e passaram definitivamente para os filmes de terror. Mas, não custa nada a gente recomendar para quem tenha que enfrentar algum lugar com fama de mal assombrado, que não esqueça de levar um crucifixo e uma boa provisão de alho, pimenta e sal. Coisas que o tinhoso não gosta. Pois, certo estava Miguel de Cervantes:
: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.
QUEM MATOU O PADRE SENADOR JOSÉ BENTO
QUEM MATOU O PADRE SENADOR JOSÉ BENTO?
Paulo Toledo
Após seus deveres de chefe espiritual e político de Pouso Alegre, o Padre e Senador do Império, José Bento Ferreira de Melo, às 16h30 do dia 8 de fevereiro de 1844, apeia de seu cavalo e vai fazer um lanche rápido na casa de sua comadre Maria Bárbara do Sacramento Vilhena.
Na saída, Maria Bárbara diz para o Senador: "Cuidado, existe um zum-zum que estão preparando uma tocaia para o senhor", José Bento, responde: "Isto é boato. Quem poderá atentar contra um Senador do Império?" E segue em seguida rumo à sua fazenda para acompanhar a colheita do milho e ver seu gado leiteiro.
Naqueles tempos, a demarcação de terras era a principal fonte de conflitos entre os confrontantes. Dizia-se, em razão disso, que a vizinhança, contratara um pistoleiro para dar cabo do Senador. Mas ele, destemido, não deu ouvidos à sua comadre e seguiu viagem
Às 17 horas, logo após a Rua das Taipas (hoje alto da Comendador José Garcia), no caminho velho da Faisqueira, logo após a subida da Volks - de tocaia, surge a figura do pistoleiro Dionísio Tavares da Silva que, com dois tiros de garrucha, implacavelmente assassina o grande Senador do Império.
Dionísio, o pistoleiro contratado, foi descoberto um ano depois e recebeu uma pena de 30 anos de prisão que cumpriu em Barbacena.
Já em liberdade, quarenta anos depois, Dionísio velo visitar Pouso Alegre e se tornou, então, pessoalmente conhecido por toda a população.
FONTE: Blog do Bentu, o Blog da cidade de Senador José Bento
13 de Junho
CABO JURANDIR
CABO JURANDIR
Paulo Toledo
A guarnição Militar de Pouso Alegre, em passado recente, era um comando de general. Vários deles por
aqui passaram deixando suas marcas e seus “causos”. De um deles às vezes eu me lembro, não só pela sua pose e porte, como também pelo acontecido entre ele e o seu motorista, o famoso Cabo Jurandir.
Esse cabo era conhecido no meio da “milicada” pelo apelido de “cabo loco” e essa sua “trapalhada” foi, mais ou menos assim:
O general estava no Rio de Janeiro e como tinha conseguido um avião da Força Aérea para voltar para Pouso Alegre, ligou para o quartel pedindo que mandassem o seu motorista até o campo de aviação da cidade, que o dito avião deveria chegar, naquela tarde, lá pelas 16.00 horas.
Assim, o Cabo Jurandir deu uma geral no carro preto, engraxou os sapatos, caprichou na farda e se mandou pro campo de aviação. Chegando lá, desceu do carro, encostou-se ao mesmo e ficou esperando o avião do chefe.
O avião chegou antes do escurecer e dava seguidos rasantes sobre a pista e não aterrissava. Pois o gado do pasto vizinho tinha rompido a cerca de arame farpado e algumas vacas estavam no meio da pista.
O Piloto temendo o escurecer, vendo a passividade do motorista encostado no carro preto e sentindo que dali não saia nada, depois de um bom tempo e de vários rasantes, balançou as asas do avião, pra lá e pra cá e voou para Poços de Caldas onde a pista era iluminada.
Como o avião balançou as asas e sumiu no horizonte, o Cabo Jurandir voltou para o quartel e guardou o carro preto.
Chegando à Poços de Caldas o general pegou um táxi para Pouso Alegre e no quartel, puto dentro da farda, a primeira coisa que fez foi chamar às falas o seu motorista. Porém este na maior “cara de pau”, assim se explicou:
Meu general, o avião balançou as asas, pra lá e pra cá. Avisando: general não veio , general não veio, então eu voltei pro quartel e guardei o carro.
BECO DO CRIME
BECO DO CRIME
Paulo Toledo
Era noite de Natal do ano de 1955,quando a voz solene do Monsenhor Otaviano, pároco da Catedral Metropolitana, rompeu o silêncio pelo alto falante da igreja: ”Meus queridos fieis... infelizmente, nesta noite santa em que nasceu o filho de Deus, uma ovelha do seu rebanho partiu. Uma jovem está morta em um beco da cidade. É preciso que alguém vá lá reconhecer o corpo de uma pobre menina!!!
Jacira tinha 13 anos e era a caçula de uma família que tinha 11 irmãos e irmãs. Todos que a conheciam viam nela uma menina linda e super protegida pelos irmãos e pelo pai Zé Castelhano.
Jésus Damasceno era meio mulato, boiadeiro, açougueiro e ainda não tinha completado 18 anos. Mas, escondido do pai da moça, mantinha um namorico com a bela Jacira.
As famílias eram pobres, no entanto era comum naquela época o pai desejar um bom partido para a filha, coisa que Zé Castelhano e seus filhos achavam que estar longe das condições de Jesus Damasceno. Então, o pai de Jacira chamou o rapaz às falas e proibiu definitivamente o namoro.
O respeito aos mais velhos e ainda mais se tratando do pai da sua amada também era coisa sagrada naquela época. Então, Jésus endoidou e como só visse a solução extrema dos Capuletos, naquela noite fatídica levou dois punhais à catedral e chamou a sua amada para consumar a tragédia.
A cena aconteceu em um beco da cidade: Ela não teve força ou coragem para apunhalar seu amado. Ele a apunhalou cobriu o corpo com seu palitó e fugiu. E, este beco da cidade “Beco do Crime” se chamou.
(fonte: Blog do Airton Chips)
domingo, 9 de dezembro de 2012
EU E A CIDADE
EU E A CIDADE
Paulo Toledo
“O centro do mundo é onde estão plantados os nossos pés”. Li isto hoje em uma crônica e tive vontade de falar sobre a cidade onde vivo. Isto porque fiquei velho nesta cidade e há algum tempo eu comecei a pensar que faço parte da sua história, coisa mínima, como qualquer um de seus mais humildes habitantes. Mas, todos devem ter dado alguma contribuição, por menor que seja para o desenvolvimento e a importância de Pouso Alegre dos dias atuais.
Aqui neste chão eu me sinto bem, porque aqui estão pessoas amadas e queridas: meus parentes, meus amigos e muitos conhecidos que, com raras exceções, me tratam com bondade e sempre me acolhem com o maior respeito. Acho até que as exceções que são raras mesmo, devo colocar na conta de alguns forasteiros mal educados.
Esta cidade não tem a melhor qualidade de vida do país e suponho que também do Estado de Minas Gerais. Pois isso é coisa da estatística que já disseram, com razão, que é o tipo da ciência frívola. Mas, para mim ela lembra muito uma fábula que conta a resposta dada por um sábio, quando lhe perguntaram de onde ele era e a sua resposta foi mais longa que a esperada:
“Quando eu era menino, na escola primária, a professora ensinava os pontos cardeais e dizia: na nossa frente está o norte, atrás esta o sul, à direita o leste e na esquerda o oeste. Aí, vendo que eu estava distraído, me perguntou onde é que eu estava. Então eu respondi prontamente: todos nós estamos no centro do mundo”.
Aquele menino da fábula sabia das coisas e eu aqui em Pouso Alegre me sinto como ele, achando que tudo existe para que esta cidade exista, uma vez que eu a escolhi para morar, criar a minha família e viver enquanto puder.
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